terça-feira, janeiro 01, 2008

Um leve sabor

Atualmente existe uma linha poética, considerada moderna, que acha que não deve haver "derramamento" no poema. Ou seja, nada de sentimentalismo tolo, piegas, apenas e tão somente a técnica.

A alguns anos atrás, cometi este pecado, criei alguns textos que hoje estão desatualizados, porque são "derramamentos" claros.


Sinto no ar um cheiro de lágrimas nesse momento
Em que o sol morre e morro junto com ele.
Há nestas tardes algo triste que me consome
E não consigo explicar, que me deixa distraído
De olhos brilhantes olhando para o vazio.

Sinto no ar um gosto de sangue.
Sou cativo destas tardes de outubro quando vejo
De minha janela as aves descerem para a rua
Em busca de alimentos, me lembrando
Do que devia ter esquecido e enterrado.

Já não sei o que quero, nem se sofria
Antigamente mais do que sofro agora.
Tenho vontade de ser eu mesmo, livre
De qualquer coisa, solto no tempo,
Um homem frio e calculista, pronto
Para destruir. Mas só sinto no ar
Esse cheiro cruel de solidão,
Sentimentos reles e becos imundos.

Preciso me livrar dessas tardes inquietas
Em que me sinto observado por olhos
Invisíveis e saturado de tanto amor.
Tenho urgência em não chorar: já cansei
De ter idéias fúteis, sonhos fúteis.
Só sinto no ar esse cheiro forte de choro e morte.


São Paulo, 13/10/1982

Um comentário:

simao disse...

mauro, esse texto é mais do que real, a imagem posta é do menino jesus ao colo do pai, caríssimo josé. mas devo acrescentar aos comentários que os significados da poesia é a arte sem rótulos, tolos são aqueles que apresentam teorias, regras e métodos para se escrever ou para se compreender a poesia. o tal "derramamento" é pura tolice de quem não sabe fingir a "dor que de veras sente" e "na dor lida não se sente bem", porque não as têm. a poesia é a manifestação do homem-poeta às coisas do universo. ainda se você vir ou ouvir alguém editando regras de poesia, chame-o de tolo, ou melhor, nem ligue para o tal, porque ele não sabe o diz, nem eu nem você. somos apenas instrumentos, agentes do tempo e da arte.

abraço, simao