terça-feira, novembro 30, 2010

Á primeira vista


Enquanto recebo a luz e os ponteiros
parece improvável que pessoas de vidro
Passem horas em finos postes.

O teto é um lado do inferno
O curto estar, produto de minha mente
A frente de um quadro retocado.

Há um relógio, desolado espaço.
Há um sentir de ventos, meios.
Provas, de que estou aqui, só.

domingo, junho 27, 2010

O país da morte

Nada restou, a não ser a noite e as sementes
A casa negra e o alvorecer,
As palavras e as flores tristes.
Eu desconhecia ecos
Cujo som me envolvia na tarde
Ouvindo o radio, olhando o portão
As madressilvas no pequeno jardim
De minha casa.
Nada restou, nada.
O país da morte ainda se desenha
Num crepúsculo arroxeado e vestido
De luto, nas plumas apressadas em
Um gesto, um tchau distraído
Um caminhar respirando na luz
Quase linear
Do fim de dia.

Construção

Foto by Mauro P. da Silva - Paranapiacaba, São Paulo

Pertenço à minha infância e aos telhados,
aos livros e às figuras,
Motivos de morte, desafios
sob a luz da lua, um lugar de ouvir vozes,
a casa aberta e cheia da noite.
Pertenço aos livros,
manuscritos e neves brancas, às pausas,
Às vozes perdidas e modos tristes,
aos gritos e brinquedos,
Pertenço à vida em fiapos, aos grãos
lançados ao ar.
Pertenço aos pães,
dia após dia, ao levedo branco
- janelas desenhando
as cercas de lá de fora,
Pequenas aldeias dormindo
aos pés das serras o sono tranqüilo
da vida mesclada à morte.
Ainda não estou terminado:
Deus ainda me constrói,
Diariamente.

sábado, maio 29, 2010

Quadro

Entre portas, as luzes fluem
 como libélulas enlouquecidas.
A mulher esquecida sobre
o velho sofá avermelhado.

A janela desenhando o mundo,
que parece estranhamente real.
O homem dividido tentando juntar
suas partes estremecidas.

O inferno queimando
seus últimos
 recursos.

terça-feira, maio 11, 2010

A limpeza e as cores





    Fotos de Antonio Manuel (Paços de Ferreira - Portugal) antoniomanuel26@hotmail.com

Lavai minha alma, meus pés,minhas mãos erguidas,
a chuva caindo em tarde de pedra.
Lavai meus cilios, pesados cilios,
um circo se desenhando além de mim,
num mundo que não compreendo.
Lavai meu peito.Lavai meu tempo.

Lavai toda a ensanguentada roda
da vida e dos homens que nela urgem.
Lavai o dia, os carros na avenida
pintada de cores hibridas.
Lavai o meu pequeno espaço,
este onde dedilho cordas que às vezes
só eu mesmo entendo.

domingo, abril 25, 2010

Nevoeiro

Foto by João Chaves - Portugal - www.restaurantesaopedro.com

Alguém me dizia sobre a escuridão.
Poltronas velhas, alvoreceres.
Exércitos e um corredor bastante largo.
Seda branca, equilibristas e malabares.
Sapatos pesados de lama.
Um juiz e sua sentença.
A lareira e seu fogo.
Mas nada é claro.

Pequena lima

Foto by João Chaves - Portugal - www.restaurantesaopedro.com

Sempre que se ergue, a quietude das árvores trabalha em mim.
Nada desenhada ou divertida.
Mas um leve chiar de vento.
Pés que correm, desenhando na grama o desenho das mamonas.

A lassidão da curva entorpece e nada mais.
Há um choro, apenas. E um terno e atencioso olhar do lago.
Para o cassino das plantas, mais nada no mundo incomoda,
É o exemplo de tudo: o pálido céu encandescido de mariposas.
As coisas esquecidas no navio do tempo.

As tiras de luz e o espanto brigando por um espaço de asas.
Meio ocultas as margaridas reclamam: ainda não é noite.
O emaranhado da vida senta-se á beira do filme que se faz.
O desenho do momento é uma pequena lima.

Mas vê-se, de repente, livre e pequenino.

O leiteiro, o almoço e a amarelinha

Foto by J. Pedro Martins - Portugal - http://estoriasaometro.blogspot.com


Saiba que ainda vejo luzes,
Porteiras abertas,
Cavalos pastando além da linha
Onde eu aguardava o trem do meio-dia.
Ainda vejo ruas, vermelhas ruas, de lama e sol
As mães levando os filhos pela mão,
A escolinha de madeira além do bosque,
Onde eu buscava ninhos de passarinhos.
Saiba que ainda ouço trovões, vejo raios,
Sinto o cheiro do dia amanhecendo,
O leiteiro e seu cavalo com sininhos,
O homem passando de bicicleta apregoando
Conserto de panelas e de guarda-chuvas.
Ainda ouço, incrivelmente, as cantigas noturnas,
De namoro no escuro, os jogos de amarelinha,
De bolinha de gude, peão, a estrada trêmula de calor
Se perdendo pros lados do Frigorífico Mouran.
Saiba que ainda sinto o cheiro da grama cortada.
Do café sendo feito.
Ainda ouço os gritos de minha mãe me chamando para o almoço.
E estes ruídos, sons e cores, compõem o que ainda sou,
Mesmo distante e envernizado pelo asfalto urbano
De outra cidade e de outro tempo,
de outras pessoas.

quarta-feira, março 10, 2010

A vontade de pronunciar

Foto by Mauro Pereira da Silva - Vitoria do Espirito Santo, dentro do Mosteiro

O corpo cresceu, desenhado e envolvido pelo eterno retorno.
O nome da casa era Lembrança e e era difícil reconhece-la.
Havia presença em seu quintal, mais que isso, um estar sozinho.
Tarde da noite os nomes surgem em suas paredes mal pintadas:
O tempo ágil, o dia proposto, o que de mais explicito contém dor.
Nada restava na quietude da casa multiplicada e envolvente.
Apenas o orgulho e o olhar, apenas um céu carmesim e azul
A pretensão de caminhar suavemente e lançar no tempo,
O que se é, nos dias bons, brilhantes e castos, uma sucessão.
Na casa antiga, a morte com aparência de menino e homem,
O homem e o menino, extintos, mas sedimentados em um só.

domingo, janeiro 31, 2010

PLANETÁRIO

1. A destilação do corpo.

Meu corpo se abre no madeiro
Onde a fuga é o grito
É o corpo de milhões
Lasca de mato desfalecido.

Silêncio, se pinta na noite
Breu, redemoinho em volta.
Silêncio, poema em prece
Tarde que suave desce.

Corpo em pontes de luz
Milhões como um grito
Desfalecido madeiro
Poema em prece. Silêncio.

2. O corpo como prova da morte.

Sempre limpo, o corpo surge
Como um paletó intacto:
Tema da novela nortuna,
Onde o galã se exibe como
Um pavão aceso.

Rasgado o corpo surge
Expondo carne, morte,
Ânsias de cartas recém-jogadas

Há um circulo, criado pelo
Tempo
Compacto e largado na mesa
Como um maçã de plástico.

Na gangorra da vida
Ainda existe o limo
Verde e farto limo
Que prepara a queda

Fatal e inexorável.
Seja presente ou seja
Passado.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

A dor




A dor se veste de clara roupa.
Chama-se poesia,
Chama-se suspiro.
Chama-se longa caminhada.

Chama-se moça na janela,
Chama-se fim do dia, o sol
Se pondo numa estrada imensa.

A dor se veste de chuva
Causa inundações
Destrói plantações
Invade campos.

A dor (poesia), se veste
De anjo e morte,
As vezes de sopro e sorte.
Sempre em cores
Insustentáveis.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

O afastamento

Diamantina, Minas Gerais

Rio Negro, a 60 km de Manaus, dentro da selva amazônica

Porto de Manaus (Rio Negro)
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By Mauro Pereira da Silva

Um outro homem,
Me vi no espelho.
Era uma careta, amedrontada
Já com cabelos brancos
Iniciando a jornada
Da penumbra.
Já não existia o riso
De antes,
A rua de sol,
A casa verde-clara,
O cão amigo.
Já não existia a escola
No campo,
Os amigos jogando
Bétia, os rios
De domingo.
Um outro homem
Me vi,
Já não mais riso,
Já não mais coração
Amplo e claro.
Mas só um traço.
A sombra da dúvida.
O afastamento
Dos dias imensos.

Pensando em Floripa



Florianopolis, Santa Catarina
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Imagino a fúria
Do teu beijo.
Muitos se deleitariam.
Uma sala escura e
Sombria
É o estar longe
Do teu peito.
É puro, o andar
Da gazela
De pernas longas
Pelo campo
Florido.
O cuidado
É sempre o olhar
Da fêmea
Acasalada.
O desejo,
É sempre a força
Das múltiplas
Águas
Molhando
O ninho.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Anunciato



Monte Verde, divisa do estado de São Paulo com Minas Gerais.
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By Mauro Pereira da Silva

Em dobras
Os joelhos estão sob oração.
Ai Senhor dos Exércitos, acuda
Pois não há guardas em meu coração
De homem.
Acuda, que enterradas as palavras
Só me restam as moscas
E os livros.

A tempo, ainda não me fiz Lázaro.
Um lençol marmóreo jaz
Sob o corpo.
A tempo, tudo o que me
Espanta
É tão raso e feio,
Tão ínfimo e cruel.

Tenho fome,
De letras, sopros de
Anjos pernaltas.
Tenho fome de círculos
De Deus pai,
Aquele que foi concebido entre
Dores de parto.

Tenho visões,
Vejo Cristo rindo e
Gargalhando,
Todo o mar da Galiléia
Explodindo em peixes.

Vejo João, vejo Pedro
Vejo o lado direito
Do coração explodido
Vejo serras e vejo rios.
Mas não me vejo, ó pai.

Vejo meses iguais, sempre
O mesmo vale,
Minha cidade longínqua,
Aberta aos meu dedos e olhos.

Vejo uma varanda
Meus avós
Meus tios,
Minha mãe
Nas noites mornas
Da Rua Acre.
Meu reino de luz
e risos.

Ázimo

Monte Verde, divisa do estado de São Paulo com Minas Gerais
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Toda a pressa do mundo
Estaca na esquina,
Naquele farol
Aglomerado de terra rubra
Noite imensa
Vida multiplicada
E insana.
O gado rola, implume.
Todo o seu transe é fundo
De larvas e postais.

No começo as patas
Sabem seu lento caminhar.
Misturadas ao sabor do sol
Como signos de linguagem
Estampam nos rostos
Dos paulistanos,
Pães ázimos pela rua
Namorando.

A chuva vem,
Chuva de leste a oeste,
Entre as marginais,
Tufos de água e barro.
Chegada de quem
Ainda não sabe
Sobre a locução
Da palavra Amor.

Afinal, o que sabem
Os homens?
O que sabem,
Os repartidos
Os esfomeados?
O vento tece musgos.
Cai o céu de anil.

Os navios e seus mortos

Monte Verde, divisa do estado de São Paulo com Minas Gerais
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By Mauro Pereira da Silva

Com navios,
E alguns sonhos
Tudo pode ser atingido
Por bem pouco:
O sol
Da tarde,
O carro,
Que passa.
Com seus mortos.
Os navios passam
E levam o que ignoro.
Saciados de gente,
Em sua algibeira
De ferro e aço.
Engolidos,
Pelo dia contumaz.
Me resta o salto,
A curvatura
Do circulo,
O remorso
De não ser mais
Jovem.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Feliz Natal, excelente 2010!


Abraço a todos os amigos! Apesar de não comemorar o Natal, desejo a todos um ótimo Ano-Novo. Mais um ano, mais cabelinhos brancos, alguns amigos que se foram - infelizmente, e aqui vamos nós, sobreviventes, adentrando 2010

Que venha!

"Quem se vence, vence o mundo." — Vincere cor proprium plus est quem vincere mundum.