terça-feira, novembro 12, 2013

SERRA NEGRA E SUAS NOITES



                         Foto de Mauro Pereira da Silva -

As palavras às vezes quebram coisas:
Jarros, flores, janelas.
Minha mãe e seus pés de romãs.
Descerram os aromas da noite, suas delicias e seus hortelãs.
As palavras, meias-palavras - seu conteúdo e figuras-,
Arrebentam meu peito, traduzem a alma lavada e esplêndida
Que às vezes foge de mim mesmo.
Se embrenha em matas terríveis, onde não me atrevo.
Por que não os véus da vida, as tardes sendo violentadas
Pelos gritos da minha boca?
Reluto.
O que vem de mim não é meu.

quarta-feira, setembro 04, 2013

ESTRANHA E CRUEL VIAGEM



     Foto de Mauro Pereira da Silva - Planalto (SP), entre Andradina e Planalto, pela antiga estrada.


Olha, sei que somos homens de boa vontade.
Sei que somos companheiros nesta viagem
Estranha e cruel, que é a vida.
Sei que levamos golpes, manchamos a terra,
Plantamos, sofremos, choramos,
Mas raivosamente insistimos em ser felizes,
Em amar uma mulher, como se ama uma flor
Em meio a cardos e ferrões.

Olha, companheiro, sei que resistimos
Mais do que somos capazes.
(somos homens de boa fé, eu sei)
Mas na sangrenta batalha que travamos
- Entre a existência e a morte -,
Existe um ponto, que ainda não sei,

Ainda não detectei, cego que sou
Que nos golpeia e nos inflama
E nos resgata, imortais
Em um pequeno e insignificante
momento
Quando somos deuses
ou imaginamos sermos.

ÁGUA COMO FLOR NA CHUVA



                        Foto de Mauro Pereira da Silva- Gaspar (SC), campos de arroz.


Outro dia de chuva.
Alguns pessoas no barco, descendo
Para além do papel desenhado.
Exausto, o dia passa, indolente.

Existe uma linha, afogada
Entre espessa ferocidade,
Como um cavalo a galope,
Descendo a ribanceira
(chocante é a figura,
Água como flor na chuva)

Girando desgovernado
Manchando o vermelhão
Montando uma outra realidade
Diversa desta
Que registrei, distante.

Cismo que existem outros mundos.

SETE DIAS DE CAMINHADA



                              Foto de Mauro Pereira da Silva - Holambra (SP), Setembro/13


Durante sete dias andei descalço
Longe de mim e dos esboços que antes vira
Rumo ao imenso vagão, pálpebras sublinhando
O horizonte cortado de fumaça.

Durante este tempo desenhei em mim mesmo
Uma veste, caverna poderosa onde poderia me esconder
Dos dias e dos homens.
Carreguei cargas além de minhas forças
E minha única afirmação era: ainda existo
Ainda caminho, ainda olho, itinerante e solitário.

A fome não era nada, ramagens me acordavam
Exalando cheiros quase que líquidos.
Do outro lado de mim, um rio, uma grande história.

Um rígido silencio jogado no horizonte.
Murmúrio, apenas.
O tempo desperto e na pele.
Uma mesa, meu peito,
Uma última história fechando a janela.

PEÇO SÓ O IMPOSSÍVEL



                              Foto by Mauro Pereira da Silva - Estiva Gerti (SP) - Setembro/13

Peço só o impossível, um barco em Ilha Solteira
Os sapatos pesados de barro, um momento entre a correnteza,
O pão na frigideira, uma oração erguendo-se como um poste
Entre as ruas do meu antigo bairro.
Em troca, peço apenas uma nesga de céu
Do céu de Andradina, de quando o sol bate nas nuvens
E fica aquela cor rasgada, avermelhada, pros lados
Do Mato Grosso.
Em troca deste coração velho de um homem velho,
- Apesar da pouca idade, com seus muros e suas mãos,
Sua pisadas e a simplicidade do coração -,
peço o que já antes pedira, um espaço de água,
Pequenos recipientes emergindo entre os barcos,
As amuradas queimadas e esquecidas,
Em minha antiga rua, numa direção que hoje já não vejo.

segunda-feira, janeiro 07, 2013

PLUMA


                                            Florianopolis - Saco dos Limões - Foto de Mauro P. da Silva

Estou quase certo de que havia uma luz em frente
Um antigo poste desenhado por mestres artesãos
Onde um dia colei uma massa de chiclete mastigado.
Fiquei parado no meio da rua olhando uma lua linda
Enquanto os carros passavam buzinando e tremendo.
Fui para perto dela, a menina loira de olhos claros
E ela me olhou por cima do ombro como se dissesse,
Sai moleque atrevido, você é quase nada, arreda o pé.
Olhei para seu vestido, seus joelhos lindos e alvos
Que escondiam segredos além de mim e do fogo.
Estou quase certo de que havia uma luz em frente
Onde seu Olívio, Dona Maria, Dora, meus amigos
Me observavam, tentando descobrir em mim a dor
Do amor que nascia, tão leve e tão suave como o vôo
De uma rolinha, ainda em pluma.