Ás vezes procuro Deus na estrada
E observo o lusco-fusco dos carros que vão e vêm
Numa interminável teia multicolorida,
Como pirilampos enlouquecidos pela noite.
Ás vezes procuro Deus numa criança,
Que brinca e esperneia, ri e chora,
Sem saber ao certo do que se trata a vida
As pessoas a sua volta, e seu mundo se resume
A coisas simples, pequenas, básicas,
Como o amor dos pais, o comer e o dormir.
Ás vezes procuro Deus nas pessoas que vejo,
Algumas sombrias, algumas desconcertadas
Buscando, elas mesmas, este Deus tão desejado,
Em igrejas e livros obscuros que não levam a lugar nenhum.
Mas Deus, percebo, está em mim e quase sempre se debate
Entre o Bem e o Mal, entre o Dia e a Noite
Luta entre o Estar e o Não-estar.
Descansa seu corpo entre pequenos detalhes da vida:
Um palito, uma nuvem, um movimento na rua,
Uma escada que sobe, uma ave que desce,
Uma revoada de andorinhas como as que eu via em minha terra
E nunca mais vi aqui na cidade grande.
Deus está em mim, mora em mim.
E me empresta seus olhos para que eu veja nas coisas que me cercam
Sua silhueta desenhada nesta coisa medonha e terrível
Deliciosa e amarga,
Que chamamos Vida.
quarta-feira, agosto 20, 2014
sábado, maio 31, 2014
ANA MARIA E OS POSTERS
Me rebelo contra o dia, seja qual for
A verdade dele,
Minha avó Mazé fazia colchas de retalhos.
É estranho como em mim o efêmero persiste.
Um quadro incompleto de cores
E formas,
Um borrão, como o retalho, o ponto em branco
Onde escrevo e sonho.
Contrafeito e louco, admiro a
Vaidade dos homens,
Procuro o sobrenatural, o juízo perfeito
Como os rododendros que a menina desenhava
Em seu caderno cheio de estampas e posters
Nos anos setenta.
Nos anos setenta.
Linhas onde trens às vezes se confundem.
Linhas da mão, ciganas e frouxas,
Troncos tortos, o paradoxo da vida e da morte
A mesma moeda que se joga,
Mas não se sabe onde vai cair.
A REPRESA
A temporalidade é o que se lança
No nosso rumo, a história de nossa própria divindade.
Deuses? Talvez,
Mas o esquecimento é o descanso,
O necessário sermão que o espírito dá ao pó:
Corpo, decomponha-se,
já não preciso de ti,
Fui seu dono momentâneo, te limpei,
te vesti. Mas a comporta que foste não és mais, sou livre.
Durei enquanto pude, férias de sol e luz.
Apenas o tempo é mestre,
Ninguém mais.
quinta-feira, março 13, 2014
POEMA AMÁVEL
Sem mais delongas
Um desconhecido rumo se configura
Em minhas mãos, desenhando a trilha.
Falei dela, deslizo por ela, mesclo-me a ela.
Mas se lhe juro amor, apenas brinco, apenas,
Deslizo pela linha tênue entre o desistir e o continuar.
Ela me olha e diz: sou o tempo, não há fuga, não há
Tristeza que não corrompo, nem alegria que me resista.
E vejo então, que o desenho está borrado,
E que não há ofertas:
Sou puramente humano, mesmo se não a amasse
Mesmo que a trilha dissipasse em mim
As travessas e os incômodos passos.
VASTOS ENCANTOS
A atenção do lírio me desafiava
Apagava minhas últimas flores
Silêncios atávicos que pareciam conversas
Embora no ar enrubescia de cólera e perfume.
É uma promessa numa Andradina que já não conheço,
Um encantamento menos que a morte,
Turvo e letal, trêmulo e menos mal
Que uma jardineira em flor.
Não se conhece ninguém que chore
Ou ao menos responda
A estes pedidos de socorro que vejo nos prédios brancos
Da Avenida Paulista anoitecendo.
Mas de vez em quando o céu se insurge por trás das pontes
E aparecem uns rasgões inconsequentes
Pequenos atos de humanidade em meio ao cimento.
É a vida pintando-se de outra forma
Um segredo entre nós, os homens turvos e Deus.
Á SOMBRA DE UMA RAPARIGA EM FLOR
Não tem nenhuma importância
Se eu soube quem havia pronunciado meu nome
Ou até mesmo quem se despediu e tomou o barco da vida,
Tendo a sorte e o sussurro da noite à sua volta.
Tendo a sorte e o sussurro da noite à sua volta.
Jamais saberia se o cheiro do mar no estreito azul de Bombinhas,
- De uma solidão insuportavelmente gentil e próxima -,
Significava o adeus, ou quem sabe, a ponta distante do mar.
Não tem nenhuma importância se uma pequena ave pousou
Entre sua figura acesa e inclinada no espaço,
Ou se mal enxerguei o vislumbre distante da aldeia branca
Que secretamente lutava contigo,
No quadro colorido de tua partida.
Que eu sabia, nunca mais
Teria retorno.
Que eu sabia, nunca mais
Teria retorno.
terça-feira, novembro 12, 2013
SERRA NEGRA E SUAS NOITES
Jarros, flores, janelas.
Minha mãe e seus pés de romãs.
Descerram os aromas da noite, suas delicias e seus hortelãs.
As palavras, meias-palavras - seu conteúdo e figuras-,
Arrebentam meu peito, traduzem a alma lavada e esplêndida
Que às vezes foge de mim mesmo.
Se embrenha em matas terríveis, onde não me atrevo.
Por que não os véus da vida, as tardes sendo violentadas
Pelos gritos da minha boca?
Reluto.
O que vem de mim não é meu.
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