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domingo, abril 01, 2007

O assalto

Ela preparou a comida como diariamente fazia: devagar, minuciosamente, com carinho, como em todo dia. Lembrou-se que ele não gostava de determinados temperos como salsa e cebola e quando eram casados ele vivia brigando porque ela carregava um pouco nestes temperos. Fez nesta noite uma sopa caprichada, como ele gostava, de mandioca, com caldo grosso e bem cheirosa. Colocou numa panelinha e amarrou um guardanapo em volta, de forma a que ele pudesse colocar com jeito no banco dianteiro do carro. Lembrou-se de colocar o veneno, caprichou na dose porque não queria falha. Ele tinha de morrer. E a sua nova mulher também se chegasse a tomar da sopa. Ela não suportava a idéia de que ele fosse ex. Jamais admitiria a separação. Quando ele parou o carro, ela viu que parecia mais moço, estava mais elegante, o sorriso mais iluminado. Talvez o fato da outra ter a metade de sua idade ajudasse nesse item. Ele pegou a sopa, agradeceu, pediu desculpas pelo trabalho dela. Ela agradeceu, não era nada, uma sopinha simples...Ele estava sozinho em casa porque a outra, a jovenzinha cheia de curvas, havia viajado a trabalho. Ele ligara perguntando pelo filho e conversa vai, conversa vem, ela sugeriu a sopa, ele não precisava ir a restaurante, podia passar por lá e levar uma sopa para comer em casa. Foi quando ele abriu a porta do carro que os dois assaltantes chegaram, vindo do nada. Não perceberam a chegada dos dois rapazinhos que não deviam ter mais de dezessete anos. Gritaram “sai do carro, otário, sai do carro!” ele saiu balbuciando algumas palavras desconexas, apavorado com o revolver em sua cabeça. A vida não valia nada, a vida era uma pequena flâmula que poderia ser rasgada ali, naquela hora, por um garoto armado e deseperado. Ele deixou a panelinha da sopa em cima do banco, e por sorte, a carteira estava no bolso e os garotos não a pediram. Entraram no carro e saíram cantando pneu. Ainda ouviram a voz da mulher que estava parada, extática, no portão da casa, gritando “deixa a sopa, deixa a sopa!” e acharam estranho aquilo ser gritado num assalto. Fugiram.

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A panelinha de sopa foi colocada sobre a mesa. O garoto sorrindo, falou para a mãe que aquele servicinho tinha rendido comida, além do dinheiro. A sopa tinha um cheiro delicioso. Três pratos foram colocados sobre a mesa. Até uma Coca-Cola foi aberta.

domingo, fevereiro 25, 2007

O quintal da rua Acre

Neide era morena, alta, a pele do rosto um pouco maltratada por espinhas, mas tinha bons quadris, pernas longas. Os seios eram pequenos. Era nossa vizinha, filha do seu Nestor, funcionário da prefeitura. Ele bebia muito, às vezes agredia a mulher e quando ela conseguia escapar de sua ira sobrava para os filhos. Neide era a mais velha e a principal vitima do pai. Ele parecia ter um prazer especial em agredir a filha de treze anos. Mas um dia eu descobri a razão. Dona Estefania era amiga de minha mãe, costumava fugir para a nossa casa quando o marido ficava violento demais . Certo dia, chorando, ela confessou à minha mãe que sabia que o marido abusava da filha já há algum tempo. Notou pelos lençóis, pela calcinha suja da filha, pelo jeito constrangido e principalmente pelo medo que a garota tinha do pai e pelo jeito lascivo como ele a acariciava.Desde aquele dia percebi que o destino de Neide seria complicado. Ela era minha amiga, também gostava de ler e costumávamos dividir os velhos gibis que eu conseguia comprar com os trocados que ganhava vendendo sorvete ou engraxando alguns sapatos. Via seus olhos negros e tristes, seu riso tímido, o jeito engraçado que ela me falava sobre o futuro, de como ia estudar e ser enfermeira. Nas noites de calor todos nós nos reuníamos na esquina da rua Acre com a Santa Terezinha e brincávamos de namoro no escuro, cabra-cega, salva-lata. Às vezes eu sapecava-lhe um beijo rápido e ela ficava meio que assustada, me olhando de lado e me perguntava: “Por que fez isso”? e eu respondia: “Ora, porque eu quis, você tem um cheiro gostoso".Foi por esta época que uma vizinha nossa se suicidou, pulando na linha do trem e tendo o corpo despedaçado, triturado em vários pedaços que se espalharam desde o local onde ela pulou na frente do trem até a estação da cidade. O marido havia descoberto que ela o estava traindo com um rapazinho de 18 anos, morador lá para as bandas do campo de aviação e com medo das represálias – o marido já havia lhe dito que se isto um dia acontecesse, ele a mataria -, resolveu pular na frente do trem cargueiro das vinte horas.Nessa noite, a policia recolheu os pedaços dela e colocou num saco de pano. Lembro-me deste saco encostado displicentemente na mesa da sala, deixando uma marca vermelho-escura no chão de terra. Uma mão, a mão esquerda, da aliança, não havia sido encontrada. Depois, um morador do bairro descobrira que um cachorro estava degustando a mão da morta em uma mata próxima e a trouxera de volta. Essas imagens, a do saco manchado de sangue, do sangue escorrendo e fazendo um desenho escuro no chão da sala, ficaram em minha cabeça por muitos anos. Também o choro lamentoso dos filhos da morta, o rosto fechado do marido, dizendo “Não era preciso ela fazer isso”, e a expressão desoladora das amigas, vizinhas, algumas provavelmente com o mesmo medo de serem descobertas pelos seus maridos. Neide também esteve lá, quieta, pensativa, olhando fixamente o saco de carne. Após um tempo, acho que pelas 2 da manhã, as crianças foram retiradas do local e ela também quis ir embora. Caminhava na minha frente, de cabeça baixa. No que será que pensava minha amiga? Até hoje, passados 30 anos eu tento imaginar. Talvez pensasse na vida miserável que levava, com um pai estuprador e uma mãe que por medo era omissa e a havia abandonado à própria sorte. Talvez pensasse que a morte fosse preferível àquela situação terrível em que vivia. Ela era mais velha que eu uns 3 anos, mas já tinha jeito de mulher, as formas arredondando-se, as pernas já ficando roliças, o traseiro bem feito. Acho que foi logo depois deste fato que ela engravidou e praticamente foi colocada para fora de casa. Nunca soube se era do pai ou de outra pessoa. Chegou a ficar uns dias em minha casa, já que minha mãe tinha imensa pena dela e um ódio quase mortal pelo seu Nestor, mas depois de certo tempo, não me lembro exatamente quem ou como, arranjaram uma casa de família para ela trabalhar em Ilha Solteira e não a vi mais. Soube tempos depois que ela havia tido uma menina.Um dia, voltando de meus passeios pelos sítios alheios, roubando mangas, cana, goiaba, qualquer fruta que estivesse fácil e de vez em quando matando uns passarinhos com meu estilingue, escutei uma vizinha conversando com minha mãe e percebi o nome dela na conversa. A vizinha dizia que ela já não mais trabalhava em casa de família, pois a patroa descobrira que o marido estava de olho nela. Foi colocada para fora da casa. Não entendi direito o resto da conversa quando ela disse que Neide estava num bordel, “servindo os homens e fazendo de tudo”. Aquela frase ficou me perturbando e quando meu tio José, o mais safado da família, putanheiro e segundo meu avô, um perdido, chegou no final do dia, a primeira coisa que perguntei a ele foi o que era bordel e o que significava uma moça servir os homens fazendo de tudo. Meu tio, surpreso com minha pergunta, perguntou onde eu havia escutado aquilo. Contei o que tinha ouvido. Ele praguejou e disse: “Cacete, eu era quem queria pegar aquela potranquinha” e me empurrou para fora do quarto.

domingo, janeiro 07, 2007

Enigma

A porta sempre estava trancada, ele havia percebido isso, mas a pancada na cabeça da enfermeira e o roubo da chave que ela cuidadosamente levava consigo, resolvera o problema. O próximo passo era o corredor, um longo corredor que ele, apesar de estar ali há pelo menos trinta dias, estranhamente não tivera autorização para sequer ver. Desde o princípio ele havia desconfiado daquele hospital. Pior mesmo, era a completa falta de lembranças. Por mais que tentasse se lembrar de alguma coisa, não conseguia. Havia sempre o mesmo vazio em sua cabeça, a mesma sensação de que não havia passado, não havia do que se lembrar. Sua vida anterior àquele hospital parecida não ter existido Tentara conversar com a enfermeira, com o médico, um senhor sisudo que evitava olhá-lo nos olhos, mas eles evitavam conversar. Eram estritamente profissionais, caladões, passavam uma imagem de eficiência. Só depois de um certo tempo, começou a achar que aquilo não era profissionalismo. Desconfiou que era outra coisa, um certo pacto entre ambos para não comentarem nada. E ele desesperado, querendo saber como tinha ido parar ali, naquele hospital silencioso, que parecia não ter outros pacientes. E aquelas manchinhas em seu braço!... Haviam lhe dito que eram sinais de injeções que haviam lhe aplicado quando estava desmaiado, após o acidente que, segundo lhe contaram, ele foi vitima. Mas não eram sinais de injeções. Simplesmente porque eram por demais finas, com uma mancha roxa em volta, como se alguma coisa, não uma agulha, tivesse encostado e sugado seu sangue. O corredor estava ermo, não havia outras enfermeiras. Ele andava na ponta dos pés, sorrateiramente. Atravessou mais portas, outros corredores e não encontrou ninguém. Passou a confirmar suas suspeitas. Havia algo de estranho naquele hospital. Nunca vira um hospital sem enfermeiras andando de um lado para outro, sem médicos, sem macas, sem movimento. As palavras eram estas: sem movimento. Subitamente apareceu um homem que, ao vê-lo, fez um som de surpresa, mas desabou quando recebeu uma pancada na cabeça. Ele tinha conseguido retirar da cama um pedaço de ferro. Puxou o corpo, enfiou dentro de um armário e continuou andando, os pensamentos fluindo em sua cabeça. Acabou saindo em um quintal com algumas plantas e percebeu que teria de pular um muro com mais de dois metros de altura. Na primeira tentativa, não conseguiu. Tornou a pegar impulso e desta vez teve sucesso. Ofegante, já ia pular para o outro lado quando olhou para o céu e teve a plena certeza de que alguma coisa estava errada, muito errada. Não havia uma, mas sim duas luas imensas brilhando no céu inundado de estrelas.

quarta-feira, novembro 22, 2006

A morte de Tia Irene

Naquela tarde, as crianças estavam especialmente inquietas. Pareciam estar ligadas numa tomada de 220 volts, pulando, cantando, dando tabefes uns nos outros. Tia Irene se sentiu mal, tentou segurar-se em alguma coisa, mas não havia nada que a sustentasse e desabou ao lado do monte de areia deixado pelo pessoal que fazia uma reforma na escolinha. A princípio ninguém percebeu. Os tabefes continuavam a torto e a direito, a gritaria era infernal, por isso, seu desmaio não foi notado de imediato. Um dos garotos, de mais ou menos cinco anos, foi quem notou que Tia Irene estava caída atrás do monte de areia e logo chamou os amiguinhos. Estes, ansiosos por novidades, pararam de esbofetear-se e foram ver o que tinha acontecido com a professora. Um deles, surpreso que a Tia Irene estava caída e não se mexia, falou aos amigos: - Será que ela morreu? Os outros, agrupados em volta, não sabiam o que dizer. Um ruivinho, mais atrevido, começou a chamar a professora pelo nome, mas a coitada estava sem condições de responder. - Bem, minha avó morreu há uns dias atrás e nós enterramos ela. Logo estavam todos, mais ou menos uns vinte e cinco alunos, jogando terra sobre o corpo de Tia Irene. Seu cabelo pintado de louro logo se tornou avermelhado pela terra jogada. Alguns até apareceram com pazinhas, de modo que, em minutos, a professora Irene, com mais de vinte anos de profissão, já contando ansiosamente os anos que faltavam para a aposentadoria, foi enterrada viva por seus alunos.

Meia hora depois, a merendeira percebeu um aluno ao seu lado, dentro da cozinha. - Enterramos a Tia Irene! - Deixa de maluquice menino. E quem te deu ordem de entrar aqui na cozinha? - Ela morreu e nós a enterramos. - Pelamordedeus, garoto. Volta pro parquinho. Já estou me irritando. Daqui a dez minutos é o horário da merenda e ainda não terminei. A Tia Irene deve estar te procurando. - Nós enterramos ela! - Cai fora garoto. O menino saiu correndo para junto dos seus coleguinhas com a vitalidade de seus quatro ou cinco anos, já pensando no lanche que tomaria daí a pouco. - Essa criançada – comentou irritada a merendeira - Por pouco não matam a gente de susto entrando aqui desse jeito.

A Diretora estava inquieta. As crianças que estavam no parquinho, brincando, faziam uma algazarra terrível. Estranhou que a Professora Irene, costumeiramente firme com a criançada, estivesse dando espaço para aquele barulho todo. Arquivou mentalmente a informação. Precisava chamar a atenção da Professora no final do período. O vigia diurno, postado junto ao portão da Escola, olhou em direção ao parquinho. Não viu a Professora. Viu apenas um bando de monstrinhos se esbofeteando. O que será que estava acontecendo? perguntou-se.

A merendeira aguardou a Professora Irene, mas esta não apareceu com seus alunos. Chamou o vigia e pediu-lhe que fosse chamar a Professora Irene e seus alunos no parque, pois já passava da hora da merenda. Ao chegar no parque o vigia ficou surpreso ao perceber que as crianças estavam sozinhas, brincando, completamente à vontade. Onde estaria a Professora? Perguntou-se a si mesmo. Foi até Diretoria e informou a ausência da Professora. A Diretora dirigiu-se ao parque e notou, abismada, que realmente a professora não estava à vista. Perguntou a um aluno: - Onde está a Professora? O aluno respondeu. - Ela morreu. - Como assim, morreu? - Ela morreu e nós enterramos. - Não estou entendendo esta história. O aluninho correu até o monte de areia e disse: - Nós enterramos ela aqui. A Diretora caminhou até o monte e percebeu que a terra havia sido revolvida recentemente. Desesperada, a Diretora chamou o vigia e pediu que ele retirasse a terra e qual foi a surpresa de ambos quando descobriram, soterrada por uma grossa camada de areia, a Professora Irene, desmaiada, sufocada por aquele volume imenso de terra. Tinha areia nas narinas, nos cabelos, nos ouvidos, e sua palidez era de um cadáver. Os alunos pararam suas brincadeiras, enquanto a Professora era levada pelo Resgate, entre a vida e a morte, ao hospital mais próximo. Era um fato interessante, a ambulância, os homens vestidos de branco, mas foi por instantes, pois logo estavam brincando alegremente.

Carta de Alexandre, filho de Felipe da Macedônia a Dario, Rei dos Persas

1. Teu reino é imenso e rico e servirá de escabelo para meus pés.
Teus campos servirão de pasto para meus cavalos após o suor da batalha
Tua rainha, beleza declamada em versos, conhecerá o vigor de um macho macedônio.
Teus filhos, belos mancebos, serão bons servidores, aprenderão a arrumar e a limpar minha tenda.
Teus exércitos serão varridos da face da terra e alimentarão as aves do céu
E do Oriente ao Ocidente, debaixo do sol meridional
Saberás que Alexandre da Macedônia será senhor do vosso destino.

RESPOSTA DE DARIO, REI DOS PERSAS AO INVASOR MACEDÔNIO
2. Cantas de galo, mas és apenas um pintinho saído do ovo.
Meu sangue é nobre, guerreiro saído de boa fornalha
Gerado que fui pela Dinastia dos Aquemênidas.
Ganharás uma lição como teu pai nunca te deu, jovem arrogante
E sentirás meu golpe em tuas espáduas preguiçosas
Acostumadas a boa vida e seio de mulheres.
Pagarás tuas bravatas com o sangue de tuas veias
Te farei comer areia, cegarei teus olhos,
Te ensinarei obediência e humildade
E serás bom aprendiz, tenho certeza
Ou não me chamo Dario, Rei dos Persas, Senhor do Mundo.

RÉPLICA DE ALEXANDRE, O MACEDÔNIO

3. Dario é para mim apenas um nome, nada mais
E um nome se despedaça, se lacera, se extingue
Farei tua sepultura entre as pedras após açoitá-lo com couro cru
Tuas princesas servirão de éguas para meus afoitos soldados
Farei meu cavalo Bucéfalo pastar no jardim do teu palácio
Te mostrarei que a Macedônia é berço de deuses
E verás que um descendente de Aquiles não refuga
A tua descendência desaparecerá no rio do tempo
E sentirás o peso do meu braço, o aço frio de minha espada.

MENSAGEM DE DARIO, DESCENDENTE DOS DEUSES A ALEXANDRE, O MACEDÔNIO

4. Cruza o Eufrates, traga tuas hordas de bufões!
E verás que o meu nome não será chamado em vão.
Cruza o rio, avança pelos campos, ó tagarela!
Sobe as montanhas e te preparas para a eternidade.
Saberás que Dario não é apenas um nome como qualquer outro
A flecha da batalha foi lançada e leva meu brasão
Ela tem rumo, vosso coração de falador e rufião
Enfiarás o rabo entre as pernas e te farei em pedaços
Pois antes de ti outros faladores jogaram palavras ao vento
Mas eu Dario, Senhor do Mundo, Rei dos Reis
Os trucidei a todos e alimentei matilhas com suas carnes tremulas.

(No Ano de 333 A.C, o exército de Dario III, Rei dos Persas foi trucidado pelas hostes de Alexandre, o Macedônio que cheio de ímpeto, atravessou o rio Eufrates, feriu, matou e mutilou milhares de homens, entrando para a Historia como Alexandre, o Grande. Morreu aos trinta e três anos de causa não esclarecida)

quinta-feira, novembro 09, 2006

O pior dia na vida de um homem

Naquele dia o Dr. Fraga havia trabalhado como um burro. Fez canal, obturou, tratou de infecções. Destruiu dentes e refez dentes, como é normal de qualquer dentista. Lá pelas 4 da tarde, extenuado, resolveu dar uma espairecida já que não tinha mais clientes agendados. Quando esta
va trancando a porta do consultório, apareceu D. Beijinho na boca, cheiro bom de morena asseada, peitinhos empinados. Que tal sair e dar uma? Bem, o Fraga achou boa a idéia. Já vinha saindo com D. a pelo menos uns 3 meses e conhecia a performance da moça na cama.Abriu novamente a porta do consultório, pegou a chave e os documentos do carro e partiu para o abate, ali perto mesmo, num motelzinho já familiar. Voltou 2 horas depois, mais extenuado ainda, mas satisfeito. Nada como um fight vespertino para tirar o stress. Qual foi sua surpresa quando chegou ao consultório e encontrou R. A estória de R era antiga. Podia se considerar a “oficial”. Bela moça, loira, perfume sedutor, voz rouquinha, tinha por hábito ter crises de choro quando gozava. Nas primeiras vezes, ele, preocupado, perguntou se a estava machucando, etc. Ela respondeu chorando que não, mas tinha esse defeito, chorava na hora do gozo. Pois bem. Ela queria sair. Ele declinou. Alegou cansaço, tinha trabalhado como um louco o dia inteiro, sabe como é, né. Ela insistiu. Ele já não a amava mais, o desejo havia acabado, por que não era franco e terminava tudo? Ela sofreria mas entenderia, afinal. Fraga acabou cedendo. Estava com a consciência doendo, afinal, não era justo negar a R., a mais antiga, o que havia dado a D. de forma tão fácil. Pois bem. Nem abriu a porta do consultório. Desceu as escadas, preocupado com a batalha que se aproximava.A moça do motelzinho se surpreendeu quando o viu entrar com outra mulher, pois ele tinha acabado de sair dali. Enquanto tomava o banho, Fraga sentia calafrios. O pique estava meio fraco, ia ser uma batalha dificil para a moral levantar. Mas a moça, acreditando que a causa do desanimo era meramente laboriosa, concentrou-se, usou a oralidade da língua portuguesa de forma brilhante e liquida, tinha mãos de fada e orifícios poderosos, o que animou o Dr. Fraga. Finalmente, o ilustre dentista cumpriu com sua obrigação, naquele fim de tarde, começo de noite, mês de abril. Não teve destaque nem repeteco. Ele sentia que se tentasse, enfartaria ali mesmo tamanho era o esgotamento.Deixou-a em casa ali pelas 11 e rumou para casa. Sua mulher já estava habituada com suas sextas-feiras. Desde os tempos de namorado que ele havia avisado: “Não me espere cedo pois sexta é o meu dia”. Dia em que ele saía com os amigos, tomava uma cervejinha, relaxava, afirmava. Guardou o carro, abriu a porta e foi assaltado por uma forma que o enrodilhou carinhosamente, beijando, murmurando palavras de amor e sedução. Olhando melhor, reconheceu sua esposa, vestida numa roupinha sedutora, com claras intenções de sexo. Suou frio. Percebeu que existem alguns dias perigosos e mortais.