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sábado, janeiro 01, 2011

Feliz 2011 a todos os amigos e visitantes

2010 foi um ano terrivel para mim. Adoeci gravemente, perdi minha mãe em 20/08. Passei por situações que nunca passei antes na vida. Mas tudo me serviu de lição. Estou saindo de 2010 mais forte, mais experiente, mais sagaz. Tocando em frente.

Agradeço aos amigos todo o apoio. E a Deus, pela vida.

domingo, setembro 13, 2009

Algumas Dicas do Bill

11 coisas que estudantes não aprenderiam na escola


Dizem que o texto abaixo foi dito por Bill Gates em uma conferência numa escola secundária sobre 11 coisas que estudantes não aprenderiam na escola. Fala sobre como a política do “sentir-se bem” tem criado uma geração de crianças sem noção da realidade e como esta política tem levado as pessoas a falharem em suas vidas posteriores à escola.

A vida pode ser cruel, e a crueldade pode atingir qualquer um, principalmente aqueles que não tem os pés firmes no chão

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Regra 1: A vida não é fácil - acostume-se com isso.

Regra 2: O mundo não está preocupado com a sua auto-estima. O mundo espera que você faça alguma coisa útil por ele ANTES de sentir-se bem com você mesmo.

Regra 3: Você não ganhará US$ 40,000 por ano assim que sair da escola. Você não será vice-presidente de uma empresa com carro e telefone à disposição antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e telefone.

Regra 4: Se você acha seu professor rude, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você.

Regra 5: Fritar hambúrgueres não está abaixo da sua posição social. Seus avós tinham uma palavra diferente para isso - eles chamavam de oportunidade.

Regra 6: Se você fracassar, não é culpa de seus pais, então não lamente seus erros, aprenda com eles.

Regra 7: Antes de você nascer seus pais não eram tão chatos como agora. Eles só ficaram assim por pagar as suas contas, lavar suas roupas e ouvir você falar o quanto você mesmo era legal. Então antes de salvar o planeta para a próxima geração querendo consertar os erros da geração dos seus pais, tente limpar seu próprio quarto.

Regra 8: Sua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. Em algumas escolas você repete mais de um ano e tem quantas chances precisar até acertar. Isto não se parece com absolutamente NADA na vida real.

Regra 9: A vida não é dividida em semestres. Você não terá sempre os verões livres e é pouco provável que outros empregados o ajudarão a cumprir suas tarefas no fim de cada período.

Regra 10: Televisão NÃO É vida real. Na vida real, as pessoas têm que deixar o barzinho ou a cafeteria e ir trabalhar.

Regra 11: Seja legal com os "Nerds". Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar para um deles.

quarta-feira, março 04, 2009

quinta-feira, junho 12, 2008

Arte e Isadora Duncan








Em São Francisco, em 1878, Isadora O’Gorman Duncan, senhora muito ativa e que tocava piano com muito gosto, resolveu divorciar-se do marido, o distinto senhor Duncan, cuja conduta foi, ao que parece, muito pouco delicada. A questão afetou-lhe tanto os nervos, que disse aos filhos que o estômago não suportava senão um pouco de champanha e ostras. E no meio do ressentimento, das acusações e dos desgostos domésticos – num mundo de pensões iluminadas e gás e mantidas por belezas meridionais arruinadas, magnatas ferroviários e porta giratórias, de bebedores de uísque que mascavam cravo para que lhes notassem o mau hálito e escarradeiras de lata, carros de quatro rodas e cinturas justas, de desocupados e vestidos compridos, de muitos babados e cauda (num mundo no qual salas de conferências e de concertos davam direito a chamar-se senhoras cultas e constituíam o centro da vida daquele que tivesse aspirações) – teve uma filha a que deu o próprio nome:Isadora.

O rompimento com o senhor Duncan e a descoberta de sua duplicidade, converteram a senhora Duncan em feminista fanática, em atéia e apaixonada entusiasta das conferências e artigos de Bob Ingersoll. Onde estava escrito Deus, lia Natureza; onde estava escrito Dever, beleza; e somente o homem é vil.
A Senhora Duncan lutou muito para criar seus filhos no amor à beleza e no ódio aos coletes, às convenções e às leis ditadas pelos homens. Deu lições de piano, fez bordados e teceu chalés e luvas. Os Duncans estavam sempre cheios de dívidas. Deviam sempre o aluguel da casa.

As primeiras lembranças de Isadora eram as de adulações aos vendeiros, açougueiros e proprietários de casas e a venda de gulodices que sua mãe fazia, de porta em porta, e ajudando a tirar as maletas por uma porta dos fundos, quando tinham de passar calote nas pensões, uma atrás das outras, todas pobres e com muitas pretensões.

Os pequenos Duncans e a mãe formavam um clã: os Duncans contra o mundo grosserio e sórdido. Não eram católicos nem prostestantes, nem quakers, nem batistas; eram artistas.

Ainda pequenos, os meninos chamavam a atenção da vizinhança, dando representações teatrais num celeiro. Elizabeth, a mais velha, dava lições de danças de salão. Como eram do Oeste, o mundo lhes parecia uma quimera. Não se envergonhavam de mostrar-se em público. Isadora tinha olhos verdes, cabelos avermelhados e um pescoço e uns braços magníficos. Como não podia pagar as lições de dança, inventou sua própria dança.

Mudaram-se para Chicago. Isadora dançou na festa organizada pelo Washington Post, no jardim do templo maçônico e conseguiu um emprego de cincoenta dólares por semana. Dançava nos clubes. Foi ver Augustin Daly e disse-lhe que havia descoberto a Dança. Em Nova Iorque, fez o papel de fada, numa representação de Sonho de uma Noite de Verão, com Ada Rehan.

Os Duncans seguiram para Nova Iorque. Alugaram uma grande sala em Carnegie Hall, puseram colchões nos cantos, penduraram cortinas nas paredes e fundaram o primeiro estúdio de Greenwich Village. Estavam sempre com medo de que a policia os apanhassem. Passavam a vida bajulando os comerciantes que lhes apresentavam as contas, fazendo a dona esperar pelo aluguel e arrancando dinheiro dos ricos. Isadora organizou recitais em Ethelbert Nevin. Interpretava, dançando, os poemas de Omã Khayyam, para as senhoras da sociedade de Newport.

Quando o Hotel Windsor se incendiou, perderam todas as cousas, inclusive as contas que deviam, e embarcaram para Londres num navio de transporte de gado, fugindo do materialismo da América.

No Museu Britânico, descobriram os gregos. A Dança era grega.
Sob as fumarentas chaminés de Londres, nas praças cobertas de fuligem, dançaram com túnicas de musseline, copiaram atitudes das ânforas gregas, percorreram galerias de arte, assistiram a conferências, concertos e representações, encheram-se, num inverno, de cincoenta anos de cultura vitoriana.

Sempre que eram postos para fora, por não pagar aluguel, Isadora os levava para os melhores hotéis, alugava uma série de salas e ordenava aos criados que se apressassem em servir lagosta, champanha e frutas que não fossem da estação. Nada era bom demais para os artistas, os Duncans, os gregos. E a frescura de Isadora encantava à Londres do século dezenove. Dançavam em festas de aristocráticas mansões de Kesington e Mayfair. Os ingleses, do Príncipe Eduardo para baixo, sentiam-se escravos de sua beleza pré-rafaelita, de sua inocência cheia de vida, de seu sotaque californiano.

Depois de Londres foi Paris da Exposição Universal de 1900. Isadora dançou com Louie Fuller. Era ainda uma virgem muito tímida, para compreender as insinuações de um Rodin, o grande mestre, que então se achava inteiramente desconcertado com as extravagâncias do bando de moças aloucadas e homossexuais de Louie Fuller. Os Duncans eram vegetarianos, desconfiavam da vulgaridade, dos homens e do materialismo. Raymond fez sandálias para todos. Isadora, sua mãe e seu irmão Raymond, correram a Europa em sandálias, com véus à cabeça e vivendo a vida grega da natureza numa sinfonia de contas a pagar.

O primeiro recital de Isadora teve lugar num teatro de Budapeste. Depois disto, tornou-se a diva e teve uma aventura com um ator. Em Munique, os estudantes desatrelaram os cavalos do seu carro. Tudo eram flores, aplausos e champanha. Fez furor em Berlim. Com o dinheiro que ganhou na excursão artística pela Alemanha, levou todos os Duncans à Grécia.
Chegaram num bote de pesca a Itaca. No Partenon, posaram para os fotógrafos. Dançaram no Teatro de Dionisios. Ensinaram um bando de meninos esfarrapados a cantar o antigo coro das Suplicantes. Construíram um templo para morar, numa colina que dominava as ruínas da velha Atenas. Mas na colina não havia água e antes que o templo estivesse concluído o dinheiro acabou.

Tiveram que hospedar-se no Hotel d’Angleterre, onde chegaram a dever uma boa soma. Quando o crédito acabou, levaram o coro para Berlim e representaram os Suplicantes em grego antigo. Ao ver Isadora envolta em seu peplo, caminhando pelo Tiergarten à frente dos meninos todos vestindo túnicas gregas, o cavalo da imperatriz assustou-se e atirou Sua Majestade ao chão.

Isadora ficou na moda. Chegou a São Petersburgo a tempo de ver o funeral noturno dos revolucionários mortos a tiro em frente ao Palácio de Inverno, em 1905. Teve muita pena. Ela era norte-americana como Walt Whitman. Os governos que cometem assassinatos não eram de sua classe. Sua gente eram os manifestantes. Os artistas nunca estavam do lado das metralhadoras. Era uma norte-americana de túnica grega estava com o povo.
Em São Petersburgo, que ainda estava enfeitada pelo balé século dezoito da corte do Rei Sol, suas danas foram consideradas perigosas pelas autoridades.

Na Alemanha, fundou uma escola com auxílio de sua irmã Elizabeth, que teve a seu cargo toda a organização; e deu à luz um filho de Gordon Craig.
Fez na América a entrada triunfal que sempre havia planejado e deixou os filisteus consternados com uma excursão artística. Seus companheiros eram detidos pela polícia, por vestirem túnicas gregas. Na democrática América não havia liberdade para a Arte.

O regresso a Paris foi uma apoteose: Arte significava Isadora. No funeral do Príncipe de Polignac conheceu o milionário (rei da máquina de costura) que seria o futuro provedor e financiador da sua escola. Foi com ele no seu iate (tudo o que Isadora fazia era Arte) dançar no Templo de Paeston, só para ele. Mas chovia e os músicos ficaram molhados até os ossos e todos preferiram embebedar-se.

A vida do milionário era Arte. Arte era tudo o que Isadora fazia. De volta, pela segunda vez, ao seu país, escandalizou, com sua dança, as velhas senhoras dos clubes e as solteironas aficionadas das artes. Também já mostrava no ventre o filho do milionário. E deu para beber e avançar até o palco, discutindo com os artistas.

Isadora estava no auge da glória e do escândalo, do poder e da riqueza. A escola progredia, o milionário ia construir um teatro em Paris, os Duncans eram sacerdotes de um culto (Arte era o que Isadora fazia).
O automóvel que, em Paris, levava seus filhos, parou numa das pontes do Sena. Esquecendo-se de que o carro estava com o cambio ligado, o chofer deu a partida. O motor arrancou e o automóvel caiu no rio.
Os meninos e a ama afogaram-se.

O resto da vida, Isadora viveu num desespero, entre alvoroços de escândalos, caras irônicas de jornalistas, ameaças de procuradores, demandas de gerentes de hotéis que apresentavam contas atrasadas. Isadora bebia demais, não podia deixar os jovens tranqüilos, usava o cabelo com vários tons de vermelho, nunca se preocupava em pintar-se como devia. Descuidava dos vestidos e jamais soube em que gastava dinheiro. Mas a impressão de saúde enchia a sala, quando a figura de braços maravilhosos avançava, lentamente, do fundo do cenário. Não sabia o que era medo; era uma grande bailarina.

Em São Francisco, sua cidade natal, os políticos não permitiram que ela dançasse no Teatro Grego, que haviam construído por sua influência. Onde ia, ofendia aos filisteus. Quando a guerra estalou, dançou a Marselhesa. Isso, no entanto, pareceu irreverente e sentiram-se ofendidos por não haver renegado a Wagner, nem ter mostrado respeitáveis instintos de matança.

Em sua excursão pela América do Sul, ligou-se com homens, em todas as partes: um pintor espanhol, alguns lutadores de boxe, um foguista de navio, um poeta brasileiro - deve ser João do Rio (Paulo Barreto), ao menos pelo que se pode deduzir das referências que ele faz a Isadora, em sua autobiografia. Procovou escândalos nos salões de tango. Chamou os argentinos de negros do palco. Embebedou-se de triunfo, em Montevidéu e no Brasil. Mas, enquanto tinha dinheiro, não podia evitar e gastava a rodo com dançarinos de tango, donativos, ceias depois do espetáculo e toda uma seqüência de loucuras. Tudo por sua conta. Os empresários aborreciam-na. Não sabia o que era, não se envergonhava com as murmurações, nem com as manchetes dos vespertinos.

Quando outubro levantou o pano do Velho Mundo, lembrou-se de São Petersburgo, dos esquifes deslisando pelas ruas silenciosas, dos rostos pálidos e dos punhos cerrados daquela noite e dançou a Marcha Eslava, pondo um lenço vermelho diante do nariz das velhas senhoras de Boston, no Symphony Hall.

Mas quando foi à Rússia, com a esperança de encontrar uma nova escola de trabalho, uma vida livre – viu que tudo ali era grande demais, difícil demais.

Quando já lhe era impossível obter mais dinheiro para a Arte, para as pessoas que comiam e bebiam nos seus aposentos de hotéis, para alugar Rolls-Royces e para a manutenção de seus discípulos e alunos – Isadora foi para a Riviera escrever suas memórias, a fim de arrancar um pouco de dinheiro do público norte-americano que, depois da guerra, havia despertado para os gregos, o escândalo e a Arte, e ainda tinha dólares para gastar.

Alugou um estúdio em Nice, mas nunca pode pagar o aluguel. Tinha brigado com o milionário. Suas jóias, sua famosa esmeralda, seu manto de arminho, seus objetos de arte, foram parar em casas de penhor ou em mãos de usurários. Tudo o que lhe restava eram os velhos cenários azuis que tinham visto seus grandes triunfos, uma carteira de couro vermelho e um velho abrigo de pele, descosturado nas costas. Não podia deixar de beber ou de lançar-se nos braços do primeiro que lhe aparecesse. Quando dispunha de dinheiro, organizava uma festa. Tentou afogar-se e um oficial da marinha inglesa tirou-a do mediterrâneo batido de luar.

Um dia, encontrou num pequeno restaurante de um clube de golfe, Juan, um jovem italiano, que tinha uma garagem e dirigia uma pequena Bugatti de corrida. Dizendo-lhe que talvez se decidisse a comprar o automóvel, pediu-lhe que fosse a seu estúdio, para que a levasse a dar um passeio. Seus amigos não queriam que fosse, diziam que o italiano era um simples mecânico, mas Isadora insistiu. Tinha bebido uns copos (no mundo só lhe interessavam a bebida e os jovens simpáticos...), ligou-se ao italiano, lançou para trás a echarpe de longas franjas para envolver o pescoço, com seu largo gesto habitual, virou a acabeça e disse com o sotaque californiano que jamais pode esquecer:

“Adieu, mês amis, je vais à la glorie «
O mecânico deu a partida e o carro arrancou. A pesada echarpe, que pendia para fora do carro, enroscou-se numa roda, puxou violentamente a cabeça de Isadora para o lado..O automóvel deteve-se instantaneamente. Tinha o nariz arrebentado, o pescoço pendendo...Estava morta.

(Extraído de "Dinheiro Graúdo" – John dos Passos – edição 1938)


domingo, março 09, 2008

Em Cunha, subindo a Estrada Real

O atalho que consta
No mapa amarelado em questão
Não define as ameias, nem os blocos
No imenso paredão
Que protege a Estrada Real.
Por aqui passaram milhares,
E milhares pousaram seu pés
Sob as acácias espaçosas
Que ainda hoje se formam.

Dentro do grande vernáculo
Existe talvez uma frase
Que defina melhor a posse
Dos homens pelas estradas
A posse imortal e voraz
Que os faz, cansados,
Despirem suas vestes
E mostrarem rostos aflitos
Em busca do ouro.

Mas ouro não existe mais.
Conteúdo perdido pela terra
Motivo de disputas mortais
Amarelo cru destacando-se
No sangue de alguns tolos.
Muitas vezes as escritas são vagas
E somente alguns lêem suas linhas
Raras mãos acenam ao longe:
Poucos escolhidos decifram
O mito da vida essencial.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

A menina magricela

Permanecer assim, preciso e fatal
Na sonolenta esquina das horas
Onde o vento sopra molemente

Onde as vias são retrovisores
Embora se percam no azul
Da rodovia.

Embaixo do céu clássico de janeiro
Primeiro se vê uma mulher jovem
Encarando o horizonte e as coisas

Escondendo a face detrás das mãos
Parada, abrindo os olhos espantados
Vendo os sinais.

Depois a chuva batendo verticalmente
Açoitando uma inscrição no poste
Que fiz há muitos anos, colei um chiclete

Deixando um bilhete para a menina
Magricela da casa em frente
Que hoje sequer me olha.

Sem fruto ou dinastia

Foto do mineiro Claudio Marcio Lopes

Não tem nenhum valor que falemos da dor
Do envelhecimento nobre após os quarenta
Da conduta mais ou menos sensata da fome
A descrição insossa da vida a nos devorar

Há um palácio real onde se grita e se ri?
Há seguras fontes onde a forma não se altera?
Quais as diversas maneiras de se exaltar?
É real o fogo morno que nos alivia e pondera?

Não tem nenhum valor que falemos da dor
Nem costumes há que nos livre do caos
A semente merecida não nos transporta ao céu
Não há serventia para o pobre ou para o velho

Mas me diz alguém:

" - é como uma casa sem meninos e sem cores
chão sem verde, árvore sem fruto ou dinastia
praças inertes de gritos ou musicas abortadas
ideograma de sons totalmente imprecisos"

E então religiosamente casto eu me calo
pois se não sei, o desprezo dos outros me incomoda
ergo uma urna funerária sobre o rosto
e me recolho, e não mais me declaro.

A grande alma sacrificada

Não se sabe se o que resta
É apenas recato ou cores
Beijos dentro da noite pasma
Pedaços de maçãs verdes

Não se sabe se o que resta
Enche vastas plantas ou sóis
Vórtices enlouquecidos
Seduzindo profanos faróis

Não se sabe, aliás, de nada
De todas as propostas vãs
Os socos na parede, a raiva
Ensandecida e verdadeira

Não se sabe, não se sabe
Não se sabe sequer de duas
Ou três pequenas criticas
Na melancolia do dia

Não se sabe se o que resta
Atribui-se ao tempo, a grande
Alma sacrificada e louca
A todas as artes e seduções

A posse de todos nós é o Tempo
As sandálias de um bela mulher
A elegia e o lirismo do corpo
Divino e sofrido, nunca derrotado

terça-feira, janeiro 01, 2008

Código

Longos cílios enfeitam seu rosto. A sombra
Dos olhos decifram códigos
Que só os meus entendem:
Longas horas de pausa
Depois do incesto.

Mas se somos irmãos então não pecamos.
Se não somos, apenas nos perdemos
Um no outro
Feito um sonho
Dentro de outro sonho.


Julho/ 1987

Frases destas vorazes

Se existisse um céu, qualquer um
Que não fosse luz e santidade,
Mas frases destas vorazes
Nos engolindo inteiros,
Deus nos olharia de lado
E sua silhueta nos deixaria meio bobos
Nossa face santa e esbofeteada


Outubro/1984

Cor maldita

A palma da mão decifra
Outonos
E negras formas
Mulheres sedentas
E homens famintos
Seguindo a rua, o asfalto
Recém pintadas portas.

Até certo ponto
Não me toca
Esta cor maldita de fim de tarde
E a palma da mão enxuta
Serpente absoluta
Cercando
Meu coração
Marcado a fogo.


Janeiro/1984

Um leve sabor

Atualmente existe uma linha poética, considerada moderna, que acha que não deve haver "derramamento" no poema. Ou seja, nada de sentimentalismo tolo, piegas, apenas e tão somente a técnica.

A alguns anos atrás, cometi este pecado, criei alguns textos que hoje estão desatualizados, porque são "derramamentos" claros.


Sinto no ar um cheiro de lágrimas nesse momento
Em que o sol morre e morro junto com ele.
Há nestas tardes algo triste que me consome
E não consigo explicar, que me deixa distraído
De olhos brilhantes olhando para o vazio.

Sinto no ar um gosto de sangue.
Sou cativo destas tardes de outubro quando vejo
De minha janela as aves descerem para a rua
Em busca de alimentos, me lembrando
Do que devia ter esquecido e enterrado.

Já não sei o que quero, nem se sofria
Antigamente mais do que sofro agora.
Tenho vontade de ser eu mesmo, livre
De qualquer coisa, solto no tempo,
Um homem frio e calculista, pronto
Para destruir. Mas só sinto no ar
Esse cheiro cruel de solidão,
Sentimentos reles e becos imundos.

Preciso me livrar dessas tardes inquietas
Em que me sinto observado por olhos
Invisíveis e saturado de tanto amor.
Tenho urgência em não chorar: já cansei
De ter idéias fúteis, sonhos fúteis.
Só sinto no ar esse cheiro forte de choro e morte.


São Paulo, 13/10/1982

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Laudate Dominus, Amem

Ao amigo e poeta Simão Viana que afirma já conhecer Andradina
apenas lendo estes textos, aqui vai mais uma imagem de minhas lembranças.

Em nuances as cercas florescem
Para os lados da estrada do Jaó,
Passando pelo velho Moinho
Onde velhos e seus cavalos

Decoram os campos
Sobem morros, sulcam
A terra e regam a roça
Com seu suor e espanto

Para os lados de Três Lagoas
O céu une-se aos campos
Verdes, amarelos, azuis
Unidos na mesma escala

Juntos, além do rio Paraná
E seus afluentes doces
Peixes enormes pescados
Em batelões e farpas

Em nuances Deus nos mostra
Pássaros, estradas que se perdem
Riscando o mundo, vasto mundo
Onde um dia andei, menino

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Abraço a todos os amigos!







Abraço a todos os amigos! Apesar de não comemorar o Natal, desejo a todos um ótimo Ano-Novo. Mais um ano, mais cabelinhos brancos, alguns amigos que se foram - infelizmente, e aqui vamos nós, sobreviventes, adentrando 2008.

Que venha!


"Quem se vence, vence o mundo." — Vincere cor proprium plus est quem vincere mundum.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

O poema e o seu caminho

Talvez por ainda não ter
a devida consciência
Continuei a crer na luz,
Em danças na floresta
Fluidos e solos de cantos.

Inquietamente ainda acreditava
No tempo deslocado por mundos
Onde repousasse a aurora
Onde a lisonja fosse vã
E os pequenos pontos
Constituíssem o alicerce da vida;

Onde os segredos estivessem em lápides
Confissões fossem proibidas
E todas as coisas fossem claras
E límpidas como um amigo.

Talvez ainda por ser ingênuo e doce
Continuei a crer nos povos
Sem venenos nem malicia
Onde os velhos vivessem mais
E tomassem da rosa como a uma jóia
A despeito de tudo o mais,
A despeito da força e do horror.

Mas escrevo estas frases, escrevo
Com um nó na garganta, uma raiva
imensa e nada santa nem divina
Traçada no branco da página
Tentando colorir com a mão
Com a alvura e a maciez
Este campo desolado.

O suspiro merecido de um grito

Chegará certamente o dia
que opiniões não valerão
ardores nem falsos olhos
possíveis êxitos
ou parcelas intrinsecas
de felicidade

Chegará o dia, chegará
a tarde, chegará o suspiro
merecido de um grito;
chegará quem sabe, a fuga
a vaidade crua da morte,

O esplendor azul e farto
de asseadas mulheres nuas
timbre calmo, porém frívolo
de gozo e riso,
os pinheirais de junho
passeando entre os dedos

do sol vivo e luminoso;
passeando entre os melros
transbordantes de penas
e então morreremos
pois esta é a métrica
fatal do tempo e da vida

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Pequena oração de um condenado

O Senhor escondeu de mim a sua face
E hoje só vejo monstros, escuras servas, ladrões.
Testou minha fé colocando à minha frente príncipes e muros.
Fez do meu caminhar, o caminhar dos sedentos
A transgressão marcada como um sinal em minha testa.
Escuta à mim, Senhor dos Exércitos, livra-me do passarinheiro
Da armadilha dos beberrões, das impetuosas lascívias.
Escuta à mim, que estou cansado de trilhas e pedregulhos.
O espírito é imenso, Senhor, mas a carne é finita.
Conceda-me o dom da súplica,
Faça o ocidente tremer, e o oriente fraquejar,
Abala as estruturas do meu corpo
Vosso templo arruinado.

domingo, dezembro 16, 2007

As flechas de Ulisses

Súbitos aviões riscam o céu de anil.
Imensos pássaros rasgando o espaço

como se fossem flechas lançadas por Ulisses,
o guerreiro de Ítaca. Tenho medo deles,

destes seres quase masculinos, alongados,
apontando sempre para frente.

Parecem brechas pintadas na interrupção
diminuta de uma nuvem. Riscam o céu,

riscam o vidro da janela. Deixam ao longe
um sinal quase invisível de imortalidade.

Voltando de Poços de Caldas

Um enorme vagão me atravessa
Na serra cortada de trilhos
Nas encostas íngremes da montanha.
Terras vermelhas,
Vermelho sangue entre a grama:
Uma enorme noite me atropela.


(uma bem antiguinha....)

Saber sempre

No aparelho do canto/pinta a dor e seu encanto
Na curva vil da rua/espalha-se uma ferida crua
No vazio do nosso espanto/fica o homem e seu rebento
Na escura ceia de cada dia/sobra o pé a passo lento.

No canto/espanto
Na rua/a dor nua
Na face/o disfarce
No dia/a falsa alegria.

Na candura de cada dia/espalha-se o resto só da ceia
No escuro vazio do canto/morre calado seu rebento
No dia vil daquela rua/sobra a dor tangente e crua
Na ceia pintada de preto/caminha o homem a passo lento.

(uma das antiguinhas....)