Foto de Mauro Pereira da Silva - Antiga estação de Planalto (Andradina), Estado de São Paulo.
Em Santa Cecília.
Domingão, passarinhos, carros, vozes.
Uma confusão de sons, cores, lembranças.
A chácara de minha tia, o gramado do seu Dinho.
Valdir, João, Mauri, a bela Rita.
Imaginei? Serão apenas criações de minha mente?
Mas o que vejo, não destoa.
A voz de dentro ainda está viva,
Ainda soa.
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domingo, julho 08, 2012
quinta-feira, janeiro 15, 2009
Anotações de um caipira - parte 5
Parte 5. O uso calmo do chão
Alongo a vista e vejo para lá do sitio
Pontos brancos, vagos e indistintos
Trouxas na cabeça, marmita sob o braço
O caminhar moço de catador de milho
A prova de que se existe é esta:
O tempo parado, figuras e onze-horas
Borboletas no jardim da casa
Heras, rosas, pequeno gramado
Escondendo bolinhas de gude e sonhos,
E um menino olhando as mini-saias
Era novamente maio, flores
Saindo pelas cerquinhas de balaústre.
Era meio-dia, o sol a pino.
Era Andradina.
Alongo a vista e vejo para lá do sitio
Pontos brancos, vagos e indistintos
Trouxas na cabeça, marmita sob o braço
O caminhar moço de catador de milho
A prova de que se existe é esta:
O tempo parado, figuras e onze-horas
Borboletas no jardim da casa
Heras, rosas, pequeno gramado
Escondendo bolinhas de gude e sonhos,
E um menino olhando as mini-saias
Era novamente maio, flores
Saindo pelas cerquinhas de balaústre.
Era meio-dia, o sol a pino.
Era Andradina.
segunda-feira, dezembro 29, 2008
Galhos verdes de mamona
(Foto de Mauro Pereira da Silva - A caminho de Andradina). para aumentar clique 2x na imagem
Te mando café moído, cheiro de capim cortado,
Onze-horas abrindo sob o sol de setembro
Arrebol cor de sangue tendo ao fundo
Uma revoada de andorinhas alegres.
Te mando arroz batido em pilão,
Saco de mexericas, goiaba da boa
Melão vermelhinho, açúcar mascavo
Um pouco de areia da rua por onde
Andaste em pequeno, descalço e feliz.
Te mando rosas, azaléias, mamão de vez,
Suco de gabiroba e de tamarindo verde
Galhos verdes de mamona, um céu roxinho
Um redemoinho vespertino de quando
Voltavas da escola (o Álvaro Guião)
E o asfalto até derretia de tanto calor.
Te mando algo que hoje não tens, algo
Que sentes que falta, algo que o dinheiro
Não compra: mando a ti mesmo,
A imagem daquele que se foi para sempre.
Onze-horas abrindo sob o sol de setembro
Arrebol cor de sangue tendo ao fundo
Uma revoada de andorinhas alegres.
Te mando arroz batido em pilão,
Saco de mexericas, goiaba da boa
Melão vermelhinho, açúcar mascavo
Um pouco de areia da rua por onde
Andaste em pequeno, descalço e feliz.
Te mando rosas, azaléias, mamão de vez,
Suco de gabiroba e de tamarindo verde
Galhos verdes de mamona, um céu roxinho
Um redemoinho vespertino de quando
Voltavas da escola (o Álvaro Guião)
E o asfalto até derretia de tanto calor.
Te mando algo que hoje não tens, algo
Que sentes que falta, algo que o dinheiro
Não compra: mando a ti mesmo,
A imagem daquele que se foi para sempre.
quarta-feira, dezembro 17, 2008
Arquivos do medo
(Foto de Mauro Pereira da Silva - Entre Ilha Solteira e Andradina, olhando para os lados de Pereira Barreto, esta nuvem estava se precipitando (chovendo), a mais ou menos uns 60 km de distância). para aumentar, clique 2x
Repentinas nuvens surgem apoiadas por decessos.
Destroços enormes de céus marcam os aviões perdidos,
Ataques aéreos em pleno vislumbre de dezembro,
Descargas de chuvas, brigadeiros marrons-lilazes
Impedindo comboios de pássaros desnorteados.
Defesa não há nenhuma sequer nem haverá.
Meu abraço, minhas pernas, meus olhos entristecidos
Miram além do horizonte, para trás dos pastos secos
Estrategicamente inseridos sobre o mar de árvores.
Vislumbro algumas cenas, poucos traços que não se formam.
Eu, talvez ainda desfeito em pó e corpo, andaluz trêmulo
Tentando entender o que significa todas estas cores e gestos.
Destroços enormes de céus marcam os aviões perdidos,
Ataques aéreos em pleno vislumbre de dezembro,
Descargas de chuvas, brigadeiros marrons-lilazes
Impedindo comboios de pássaros desnorteados.
Defesa não há nenhuma sequer nem haverá.
Meu abraço, minhas pernas, meus olhos entristecidos
Miram além do horizonte, para trás dos pastos secos
Estrategicamente inseridos sobre o mar de árvores.
Vislumbro algumas cenas, poucos traços que não se formam.
Eu, talvez ainda desfeito em pó e corpo, andaluz trêmulo
Tentando entender o que significa todas estas cores e gestos.
segunda-feira, julho 21, 2008
Voltando para Andradina
A partida não foi importante,
plantada em sonhos e quimeras,
arroubos de um apaixonado poeta.
Voltei,
voltei e o caminho do retorno é dolorido:
a sala não é mais a mesma,
o quarto pintado de salmão
me parece distante,
os livros ainda espalhados
pela mesinha, esperando
as mãos do dono.
Voltei.
E a palavra é pura dor,
cansaço, coração pesado
de angústia e vergonha
de nem sei o quê.
domingo, março 09, 2008
Em Cunha, subindo a Estrada Real
O atalho que constaNo mapa amarelado em questão
Não define as ameias, nem os blocos
No imenso paredão
Que protege a Estrada Real.
Por aqui passaram milhares,
E milhares pousaram seu pés
Sob as acácias espaçosas
Que ainda hoje se formam.
Dentro do grande vernáculo
Existe talvez uma frase
Que defina melhor a posse
Dos homens pelas estradas
A posse imortal e voraz
Que os faz, cansados,
Despirem suas vestes
E mostrarem rostos aflitos
Em busca do ouro.
Mas ouro não existe mais.
Conteúdo perdido pela terra
Motivo de disputas mortais
Amarelo cru destacando-se
No sangue de alguns tolos.
Muitas vezes as escritas são vagas
E somente alguns lêem suas linhas
Raras mãos acenam ao longe:
Poucos escolhidos decifram
O mito da vida essencial.
quinta-feira, janeiro 17, 2008
Rua Acre, 1047
(Na Rua Acre 1047, no Bairro de Santa Cecilia em Andradina, interior do Estado de São Paulo, passei minha infância. É interessante como uma moradia simples, rua de terra na época, alcançou esferas míticas em meu imaginário. Outro dia vi Gilberto Gil em sua cidade natal, falando de sua infãncia em uma pequena cidade da Bahia. E vi sua emoção em falar de momentos passados. O que acontece com esses dias de infância? Por que ficam marcados como cera quente em nossas mentes? Mistérios......)Tenho uma lembrança nítida da varanda,
do mangueiral e do chão vermelho, tão próximo.
A casa era verde-claro, alguns degraus, um jardim,
um cachorro chamado Sultão que morreu vomitando sangue;
uma cerca velha, um varal cheio de roupas
alvejadas no quarador.
Às vezes passava um avião e eu não entendia
como um objeto tão pesado conseguia voar.
Dona Maria era nossa vizinha, negra forte de dentes alvos.
Seu Olívio, seu marido, bebia muito e trabalhava
na Prefeitura pavimentando ruas,
mas nossa rua não era pavimentada.
Havia também um pé de goiaba, um pé de abacate,
de urucum e de mamão vermelhinho.
Eu ouvia muito falar no mar e morria de vontade
de deitar na praia fazer castelinhos na areia
como via nos filmes da matineé no Cine Santo Antonio.
Tenho uma lembrança nítida dessas coisas
que estão hoje tatuadas em minhas mãos inquietas de homem.
Às vezes passava um avião e eu não entendia
como um objeto tão pesado conseguia voar.
Dona Maria era nossa vizinha, negra forte de dentes alvos.
Seu Olívio, seu marido, bebia muito e trabalhava
na Prefeitura pavimentando ruas,
mas nossa rua não era pavimentada.
Havia também um pé de goiaba, um pé de abacate,
de urucum e de mamão vermelhinho.
Eu ouvia muito falar no mar e morria de vontade
de deitar na praia fazer castelinhos na areia
como via nos filmes da matineé no Cine Santo Antonio.
Tenho uma lembrança nítida dessas coisas
que estão hoje tatuadas em minhas mãos inquietas de homem.
quinta-feira, janeiro 03, 2008
A menina magricela
Permanecer assim, preciso e fatalNa sonolenta esquina das horas
Onde o vento sopra molemente
Onde as vias são retrovisores
Embora se percam no azul
Da rodovia.
Embaixo do céu clássico de janeiro
Primeiro se vê uma mulher jovem
Encarando o horizonte e as coisas
Escondendo a face detrás das mãos
Parada, abrindo os olhos espantados
Vendo os sinais.
Depois a chuva batendo verticalmente
Açoitando uma inscrição no poste
Que fiz há muitos anos, colei um chiclete
Deixando um bilhete para a menina
Magricela da casa em frente
Que hoje sequer me olha.
Sem fruto ou dinastia
Foto do mineiro Claudio Marcio LopesNão tem nenhum valor que falemos da dor
Do envelhecimento nobre após os quarenta
Da conduta mais ou menos sensata da fome
A descrição insossa da vida a nos devorar
Há um palácio real onde se grita e se ri?
Há seguras fontes onde a forma não se altera?
Quais as diversas maneiras de se exaltar?
É real o fogo morno que nos alivia e pondera?
Não tem nenhum valor que falemos da dor
Nem costumes há que nos livre do caos
A semente merecida não nos transporta ao céu
Não há serventia para o pobre ou para o velho
Do envelhecimento nobre após os quarenta
Da conduta mais ou menos sensata da fome
A descrição insossa da vida a nos devorar
Há um palácio real onde se grita e se ri?
Há seguras fontes onde a forma não se altera?
Quais as diversas maneiras de se exaltar?
É real o fogo morno que nos alivia e pondera?
Não tem nenhum valor que falemos da dor
Nem costumes há que nos livre do caos
A semente merecida não nos transporta ao céu
Não há serventia para o pobre ou para o velho
Mas me diz alguém:
" - é como uma casa sem meninos e sem cores
chão sem verde, árvore sem fruto ou dinastia
praças inertes de gritos ou musicas abortadas
ideograma de sons totalmente imprecisos"
E então religiosamente casto eu me calo
pois se não sei, o desprezo dos outros me incomoda
ergo uma urna funerária sobre o rosto
e me recolho, e não mais me declaro.
A grande alma sacrificada
Não se sabe se o que restaÉ apenas recato ou cores
Beijos dentro da noite pasma
Pedaços de maçãs verdes
Não se sabe se o que resta
Enche vastas plantas ou sóis
Vórtices enlouquecidos
Seduzindo profanos faróis
Não se sabe, aliás, de nada
De todas as propostas vãs
Os socos na parede, a raiva
Ensandecida e verdadeira
Não se sabe, não se sabe
Não se sabe sequer de duas
Ou três pequenas criticas
Na melancolia do dia
Não se sabe se o que resta
Atribui-se ao tempo, a grande
Alma sacrificada e louca
A todas as artes e seduções
A posse de todos nós é o Tempo
As sandálias de um bela mulher
A elegia e o lirismo do corpo
Divino e sofrido, nunca derrotado
terça-feira, janeiro 01, 2008
Código
Longos cílios enfeitam seu rosto. A sombraDos olhos decifram códigos
Que só os meus entendem:
Longas horas de pausa
Depois do incesto.
Mas se somos irmãos então não pecamos.
Se não somos, apenas nos perdemos
Um no outro
Feito um sonho
Dentro de outro sonho.
Julho/ 1987
Frases destas vorazes
Se existisse um céu, qualquer umQue não fosse luz e santidade,
Mas frases destas vorazes
Nos engolindo inteiros,
Deus nos olharia de lado
E sua silhueta nos deixaria meio bobos
Nossa face santa e esbofeteada
Outubro/1984
Cor maldita
A palma da mão decifraOutonos
E negras formas
Mulheres sedentas
E homens famintos
Seguindo a rua, o asfalto
Recém pintadas portas.
Até certo ponto
Não me toca
Esta cor maldita de fim de tarde
E a palma da mão enxuta
Serpente absoluta
Cercando
Meu coração
Marcado a fogo.
Janeiro/1984
Um leve sabor
Atualmente existe uma linha poética, considerada moderna, que acha que não deve haver "derramamento" no poema. Ou seja, nada de sentimentalismo tolo, piegas, apenas e tão somente a técnica.A alguns anos atrás, cometi este pecado, criei alguns textos que hoje estão desatualizados, porque são "derramamentos" claros.
Sinto no ar um cheiro de lágrimas nesse momento
Em que o sol morre e morro junto com ele.
Há nestas tardes algo triste que me consome
E não consigo explicar, que me deixa distraído
De olhos brilhantes olhando para o vazio.
Sinto no ar um gosto de sangue.
Sou cativo destas tardes de outubro quando vejo
De minha janela as aves descerem para a rua
Em busca de alimentos, me lembrando
Do que devia ter esquecido e enterrado.
Já não sei o que quero, nem se sofria
Antigamente mais do que sofro agora.
Tenho vontade de ser eu mesmo, livre
De qualquer coisa, solto no tempo,
Um homem frio e calculista, pronto
Para destruir. Mas só sinto no ar
Esse cheiro cruel de solidão,
Sentimentos reles e becos imundos.
Preciso me livrar dessas tardes inquietas
Em que me sinto observado por olhos
Invisíveis e saturado de tanto amor.
Tenho urgência em não chorar: já cansei
De ter idéias fúteis, sonhos fúteis.
Só sinto no ar esse cheiro forte de choro e morte.
São Paulo, 13/10/1982
quinta-feira, dezembro 27, 2007
Laudate Dominus, Amem
Ao amigo e poeta Simão Viana que afirma já conhecer Andradinaapenas lendo estes textos, aqui vai mais uma imagem de minhas lembranças.
Em nuances as cercas florescem
Para os lados da estrada do Jaó,
Passando pelo velho Moinho
Onde velhos e seus cavalos
Decoram os campos
Sobem morros, sulcam
A terra e regam a roça
Com seu suor e espanto
Para os lados de Três Lagoas
O céu une-se aos campos
Verdes, amarelos, azuis
Unidos na mesma escala
Juntos, além do rio Paraná
E seus afluentes doces
Peixes enormes pescados
Em batelões e farpas
Em nuances Deus nos mostra
Pássaros, estradas que se perdem
Riscando o mundo, vasto mundo
Onde um dia andei, menino
quarta-feira, dezembro 26, 2007
Abraço a todos os amigos!


Abraço a todos os amigos! Apesar de não comemorar o Natal, desejo a todos um ótimo Ano-Novo. Mais um ano, mais cabelinhos brancos, alguns amigos que se foram - infelizmente, e aqui vamos nós, sobreviventes, adentrando 2008.Que venha!
"Quem se vence, vence o mundo." — Vincere cor proprium plus est quem vincere mundum.
quinta-feira, dezembro 20, 2007
O poema e o seu caminho
Talvez por ainda não tera devida consciência
Continuei a crer na luz,
Em danças na floresta
Fluidos e solos de cantos.
Inquietamente ainda acreditava
No tempo deslocado por mundos
Onde repousasse a aurora
Onde a lisonja fosse vã
E os pequenos pontos
Constituíssem o alicerce da vida;
Onde os segredos estivessem em lápides
Confissões fossem proibidas
E todas as coisas fossem claras
E límpidas como um amigo.
Talvez ainda por ser ingênuo e doce
Continuei a crer nos povos
Sem venenos nem malicia
Onde os velhos vivessem mais
E tomassem da rosa como a uma jóia
A despeito de tudo o mais,
A despeito da força e do horror.
Mas escrevo estas frases, escrevo
Com um nó na garganta, uma raiva
imensa e nada santa nem divina
Traçada no branco da página
Tentando colorir com a mão
Com a alvura e a maciez
Este campo desolado.
O suspiro merecido de um grito
Chegará certamente o diaque opiniões não valerão
ardores nem falsos olhos
possíveis êxitos
ou parcelas intrinsecas
de felicidade
Chegará o dia, chegará
a tarde, chegará o suspiro
merecido de um grito;
chegará quem sabe, a fuga
a vaidade crua da morte,
O esplendor azul e farto
de asseadas mulheres nuas
timbre calmo, porém frívolo
de gozo e riso,
os pinheirais de junho
passeando entre os dedos
do sol vivo e luminoso;
passeando entre os melros
transbordantes de penas
e então morreremos
pois esta é a métrica
fatal do tempo e da vida
quarta-feira, dezembro 19, 2007
Pequena oração de um condenado
O Senhor escondeu de mim a sua faceE hoje só vejo monstros, escuras servas, ladrões.
Testou minha fé colocando à minha frente príncipes e muros.
Fez do meu caminhar, o caminhar dos sedentos
A transgressão marcada como um sinal em minha testa.
Escuta à mim, Senhor dos Exércitos, livra-me do passarinheiro
Da armadilha dos beberrões, das impetuosas lascívias.
Escuta à mim, que estou cansado de trilhas e pedregulhos.
O espírito é imenso, Senhor, mas a carne é finita.
Conceda-me o dom da súplica,
Faça o ocidente tremer, e o oriente fraquejar,
Abala as estruturas do meu corpo
Vosso templo arruinado.
domingo, dezembro 16, 2007
As flechas de Ulisses
Súbitos aviões riscam o céu de anil.Imensos pássaros rasgando o espaço
como se fossem flechas lançadas por Ulisses,
o guerreiro de Ítaca. Tenho medo deles,
destes seres quase masculinos, alongados,
apontando sempre para frente.
Parecem brechas pintadas na interrupção
diminuta de uma nuvem. Riscam o céu,
riscam o vidro da janela. Deixam ao longe
um sinal quase invisível de imortalidade.
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