domingo, outubro 21, 2012
MINHAS FRONTEIRAS
Minha primeira máscara caiu e quebrou-se. Era de plástico, construída sobre a esperança e tinha os desenhos azuis da inocência. A segunda, também não durou muito: brincou com mulheres, gritou ao som de músicas, altas horas da noite perambulava pelas ruas em busca de algo etéreo e valioso que nunca encontrou. A terceira, era de bronze, cor do âmbar flamejante como a espada de Gabriel. Grudou-se em minha face com tanta energia que parecia ter nascido comigo. Mas um dia, também quebrou-se, virou pedaços de lágrimas, escuridão e medo. A máscara que tenho hoje mesclou-se a mim. Não há limite que diga onde termino e onde ela começa. Vive aos risos, ironicamente mostrando os dentes e os olhos pusilânimes de um esteta. Apossou-se de minha face. Apossou-se de minhas falas. Na verdade, ela hoje delimita minhas fronteiras e assim vivo, mesclado ao que sou e ao que não sou, equilibrista de um circo de horrores.
sexta-feira, outubro 05, 2012
QUASE HUMILDE
Foto de Mauro Pereira da Silva - Entre Rios, Itapura, Fronteira do estado de São Paulo com Mato Grosso do Sul
Entre a nuca e o ombro
Tem um esconderijo
Uma fogueira ainda em brasa,
Cheirando a fim de dia,
Começo de noite.
Entre os cabelos,
O improviso da língua,
Desliza na dobra cálida
De um canto ameno.
Intensamente largado
Quase humilde
Em seu braseiro.
Entre a nuca e o ombro
Tem um esconderijo
Uma fogueira ainda em brasa,
Cheirando a fim de dia,
Começo de noite.
Entre os cabelos,
O improviso da língua,
Desliza na dobra cálida
De um canto ameno.
Intensamente largado
Quase humilde
Em seu braseiro.
quinta-feira, setembro 06, 2012
UM TRAÇO
Foto de Mauro Pereira da Silva - Pitangui, Minas Gerais
A voz quase inaudivel procura cristais
Suficientes caldos que descobrem trens antigos
Jogados em uma velha estação.
Cercada de beleza os quadros pintam cenas
Que eu sei, já se foram, em longinquas valsas.
Quando cheguei, a tarde declinava, o sol
De domingo qüarava roupas em quânticas
Fórmulas, simplificadas em bilhetes curtos.
É só forçar os olhos para se ver as mãos de Deus
Desenhando tudo, de pequenas cores até
Absurdos mantras radicais.
Vagos planos me trouxeram.
Fotos desfocadas iniciaram roteiros
Preso a datas longiquas, manhãs de sol,
Ruas empoeiradas e hoje ilegítimas.
Mas sou protagonista e inicio um gesto
Ligo o que vejo, ouço e penso a tudo isso
E os trens, o bairro antigo, calçadas que pisei
Compõem um traço do que sou, talvez
Desbotado pelo tempo, mas sem duvida,
O melhor exemplo de mim mesmo.
EXTERIORIDADE
Foto de Mauro Pereira da Silva - Extrema, Minas Gerais
UMA IMAGEM DO TREM E DO DIA
Foto de Mauro Pereira da Silva - Pitangui, Minas Gerais
O trem passava ao meio-dia.
Pros lados da linha,
Uma eternidade de sol e pedras,
Braços acenando,
Sorrisos esperando o almoço.
Quando havia geada o capim brilhava
Quando havia geada o capim brilhava
E meu avô me mandava cuidar das cabras,
O leite, sagrado, da família.
Ainda me dói aqueles dias,
De sol e canto,
De mãos e pelejas
Os bichos que corriam às vezes
Sob a luz da tarde que mais parecia
Uma lanterna de Deus,
descerrando a noite.
As ruas desatavam cores,
Com uma agilidade gritante
Felizes eram os dias.
Pros lados da linha,
Marcados pelo apito intenso do trem
Que passava, cantarolando nos trilhos,
Levando passageiros
Ninguém sabia pra onde.
sábado, agosto 18, 2012
Poema a São Paulo, capital dos paulistas
Ainda morrerei nesta São Paulo complexa e ambígua,
Vastidão de cimento e aço, devoradora de homens e mulheres.
Ainda morrerei aqui, ilhado pela sua espessa harmonia, pardas noites,
Filhos gritantes e escandalosos, carros zunindo em altas horas da madrugada.
Ainda morrerei nesta cidade imensa, adorada por Nordestinos, detestada por Cariocas,
Que o Centro-Oeste desconfia, o Norte só vê pela tevê e os Sulistas esnobam,
Mas que o Brasil respeita e teme.
Ainda morrerei nesta ilha de riqueza e luxo, de pobreza e morte, de dores urbanas
Lixo e luxo, grana e glória, cidade onde – Brasília sabe -, está realmente o Poder:
Aqui se constrói e destrói, simultâneamente, aqui se chora e ri, simultâneamente,
aqui, se morre e se vive entre dores de parto, filhos que somos desta colméia infinita e poderosa.
Ainda morrerei aqui, cidade maldita e amada, puta e santa.
Ainda sentirás o gosto do meu sangue, dos meus ossos, caipira que te adotou
Como cidade amada, concubina, mãe e senhora dos meus dias, onde trabalho e vivo.
Ainda morrerei em tuas ruas, em plena Paulista, ou em qualquer canto obscuro
E nefasto de tuas ruas e minhas cinzas, de Vila Alpina,
Se espalharão noite adentro pelo seus vales e avenidas, bueiros, bares, escritórios.
Ainda morrerei nesta São Paulo de paulistas rápidos e eficientes,
Bons de negócio, ligeiros em suas conquistas: práticos, como só os bandeirantes sabem ser.
Ainda morrerei nesta cidade que molda espíritos em aço, mescla raças,
Onde japoneses namoram loiras, loiras namoram mulatos e a cor da pele não é importante.
Cidade de muitos corações, onde povos e raças se unem em uma só palavra: cordialidade.
Ainda morrerei nesta São Paulo fatídica e noturna, invadida pelos carros,
Desnorteda pelo seu próprio caminhar, ás vezes por tantos contratempos
(metrô, greve, enchentes, chuva, Marginais paradas, a passeata que ocupa e invade).
O meu ódio por ti, só é superado pelo imenso amor que te tenho, cidade maldita,
Que reveste minhas veias de paixão e maciez, de luzes e sons, de pizzas, shoppings, arte e cultura.
Cidade inequívoca, capital de um estado que um dia tentou derrubar o ditador Getúlio,
Onde um dia Mario de Andrade em plena Revolução de 32, disse:
“Eu daria tudo para que São Paulo se separasse do Brasil”.
Mas eu pergunto, mestre Mário, como poderia o Brasil viver sem seu coração?
Ainda morrerei nesta cidade. E em mim, resta a esperança de que meu espírito aqui permaneça,
Sentindo como sinto agora o peito cheio de respeito por esta cidade que nos engole, mistura, mescla,
Mas ao mesmo tempo nos espanta e consagra:
Teu nome é imensidão.
terça-feira, agosto 07, 2012
RISCO
Teu corpo é branco, liso.
Cânion meigo e suntuoso, neve impressa no ocaso do dia.
Ninguém à vista, só a largura imensa dos teus flancos.
Expressão de chuva, batuque de valas,
Mina de ouro enchendo vagões pra lá de extensos.
Teu corpo – risco, golpe, labirinto - , é som de picos, claridade e neve,
Gente falando em domingo de ruas.
Caminho errado talvez, trilha perigosa,
Placa impenetrável que nos indica ventos.
(Era larga a rua. Um feroz e selvagem sol caia sobre o bairro.
Plantas cintilavam com uma gentileza quase feminina,
De corpo esguio,
De ferozes cores arrastadas pelo chão de terra).
Já não tenho medo.
Cânion meigo e suntuoso, neve impressa no ocaso do dia.
Ninguém à vista, só a largura imensa dos teus flancos.
Expressão de chuva, batuque de valas,
Mina de ouro enchendo vagões pra lá de extensos.
Teu corpo – risco, golpe, labirinto - , é som de picos, claridade e neve,
Gente falando em domingo de ruas.
Caminho errado talvez, trilha perigosa,
Placa impenetrável que nos indica ventos.
(Era larga a rua. Um feroz e selvagem sol caia sobre o bairro.
Plantas cintilavam com uma gentileza quase feminina,
De corpo esguio,
De ferozes cores arrastadas pelo chão de terra).
Já não tenho medo.
domingo, julho 08, 2012
SANTA CECILIA, DOMINGO
Foto de Mauro Pereira da Silva - Antiga estação de Planalto (Andradina), Estado de São Paulo.
Em Santa Cecília.
Domingão, passarinhos, carros, vozes.
Uma confusão de sons, cores, lembranças.
A chácara de minha tia, o gramado do seu Dinho.
Valdir, João, Mauri, a bela Rita.
Imaginei? Serão apenas criações de minha mente?
Mas o que vejo, não destoa.
A voz de dentro ainda está viva,
Ainda soa.
Em Santa Cecília.
Domingão, passarinhos, carros, vozes.
Uma confusão de sons, cores, lembranças.
A chácara de minha tia, o gramado do seu Dinho.
Valdir, João, Mauri, a bela Rita.
Imaginei? Serão apenas criações de minha mente?
Mas o que vejo, não destoa.
A voz de dentro ainda está viva,
Ainda soa.
sexta-feira, junho 29, 2012
SOL E CHUVA
Foto de Mauro Pereira da Silva - Planalto (Andradina), Telhado da antiga estação ferroviária.
Um verso enfeita o peito
E evidencia a guerra
Que se trava,
Entre as viagens
E os sóis.
Chove.
Apenas homem,
Por demais sensível,
Olhando as gotas
E os raios
Na tarde sumindo
Atrás da zona leste.
Um verso enfeita o peito
E evidencia a guerra
Que se trava,
Entre as viagens
E os sóis.
Chove.
Apenas homem,
Por demais sensível,
Olhando as gotas
E os raios
Na tarde sumindo
Atrás da zona leste.
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