Entre portas, as luzes fluem
como libélulas enlouquecidas.
A mulher esquecida sobre
o velho sofá avermelhado.
A janela desenhando o mundo,
que parece estranhamente real.
O homem dividido tentando juntar
suas partes estremecidas.
O inferno queimando
seus últimos
recursos.
sábado, maio 29, 2010
terça-feira, maio 18, 2010
terça-feira, maio 11, 2010
A limpeza e as cores
Fotos de Antonio Manuel (Paços de Ferreira - Portugal) antoniomanuel26@hotmail.com
Lavai minha alma, meus pés,minhas mãos erguidas,
a chuva caindo em tarde de pedra.
Lavai meus cilios, pesados cilios,
um circo se desenhando além de mim,
num mundo que não compreendo.
Lavai meu peito.Lavai meu tempo.
Lavai toda a ensanguentada roda
da vida e dos homens que nela urgem.
Lavai o dia, os carros na avenida
pintada de cores hibridas.
Lavai o meu pequeno espaço,
este onde dedilho cordas que às vezes
só eu mesmo entendo.
domingo, abril 25, 2010
Nevoeiro
Poltronas velhas, alvoreceres.
Exércitos e um corredor bastante largo.
Seda branca, equilibristas e malabares.
Sapatos pesados de lama.
Um juiz e sua sentença.
A lareira e seu fogo.
Mas nada é claro.
Pequena lima
Nada desenhada ou divertida.
Mas um leve chiar de vento.
Pés que correm, desenhando na grama o desenho das mamonas.
A lassidão da curva entorpece e nada mais.
Há um choro, apenas. E um terno e atencioso olhar do lago.
Para o cassino das plantas, mais nada no mundo incomoda,
É o exemplo de tudo: o pálido céu encandescido de mariposas.
As coisas esquecidas no navio do tempo.
As tiras de luz e o espanto brigando por um espaço de asas.
Meio ocultas as margaridas reclamam: ainda não é noite.
O emaranhado da vida senta-se á beira do filme que se faz.
O desenho do momento é uma pequena lima.
Mas vê-se, de repente, livre e pequenino.
O leiteiro, o almoço e a amarelinha
Foto by J. Pedro Martins - Portugal - http://estoriasaometro.blogspot.com
Saiba que ainda vejo luzes,
Porteiras abertas,
Cavalos pastando além da linha
Onde eu aguardava o trem do meio-dia.
Ainda vejo ruas, vermelhas ruas, de lama e sol
As mães levando os filhos pela mão,
A escolinha de madeira além do bosque,
Onde eu buscava ninhos de passarinhos.
Saiba que ainda ouço trovões, vejo raios,
Sinto o cheiro do dia amanhecendo,
O leiteiro e seu cavalo com sininhos,
O homem passando de bicicleta apregoando
Conserto de panelas e de guarda-chuvas.
Ainda ouço, incrivelmente, as cantigas noturnas,
De namoro no escuro, os jogos de amarelinha,
De bolinha de gude, peão, a estrada trêmula de calor
Se perdendo pros lados do Frigorífico Mouran.
Saiba que ainda sinto o cheiro da grama cortada.
Do café sendo feito.
Ainda ouço os gritos de minha mãe me chamando para o almoço.
E estes ruídos, sons e cores, compõem o que ainda sou,
Mesmo distante e envernizado pelo asfalto urbano
De outra cidade e de outro tempo,
de outras pessoas.
quarta-feira, março 10, 2010
A vontade de pronunciar
Foto by Mauro Pereira da Silva - Vitoria do Espirito Santo, dentro do Mosteiro
O nome da casa era Lembrança e e era difícil reconhece-la.
Havia presença em seu quintal, mais que isso, um estar sozinho.
Tarde da noite os nomes surgem em suas paredes mal pintadas:
O tempo ágil, o dia proposto, o que de mais explicito contém dor.
Nada restava na quietude da casa multiplicada e envolvente.
Apenas o orgulho e o olhar, apenas um céu carmesim e azul
A pretensão de caminhar suavemente e lançar no tempo,
O que se é, nos dias bons, brilhantes e castos, uma sucessão.
Na casa antiga, a morte com aparência de menino e homem,
O homem e o menino, extintos, mas sedimentados em um só.
domingo, janeiro 31, 2010
PLANETÁRIO
1. A destilação do corpo.
Meu corpo se abre no madeiro
Onde a fuga é o grito
É o corpo de milhões
Lasca de mato desfalecido.
Silêncio, se pinta na noite
Breu, redemoinho em volta.
Silêncio, poema em prece
Tarde que suave desce.
Corpo em pontes de luz
Milhões como um grito
Desfalecido madeiro
Poema em prece. Silêncio.
2. O corpo como prova da morte.
Sempre limpo, o corpo surge
Como um paletó intacto:
Tema da novela nortuna,
Onde o galã se exibe como
Um pavão aceso.
Rasgado o corpo surge
Expondo carne, morte,
Ânsias de cartas recém-jogadas
Há um circulo, criado pelo
Tempo
Compacto e largado na mesa
Como um maçã de plástico.
Na gangorra da vida
Ainda existe o limo
Verde e farto limo
Que prepara a queda
Fatal e inexorável.
Seja presente ou seja
Passado.
Meu corpo se abre no madeiro
Onde a fuga é o grito
É o corpo de milhões
Lasca de mato desfalecido.
Silêncio, se pinta na noite
Breu, redemoinho em volta.
Silêncio, poema em prece
Tarde que suave desce.
Corpo em pontes de luz
Milhões como um grito
Desfalecido madeiro
Poema em prece. Silêncio.
2. O corpo como prova da morte.
Sempre limpo, o corpo surge
Como um paletó intacto:
Tema da novela nortuna,
Onde o galã se exibe como
Um pavão aceso.
Rasgado o corpo surge
Expondo carne, morte,
Ânsias de cartas recém-jogadas
Há um circulo, criado pelo
Tempo
Compacto e largado na mesa
Como um maçã de plástico.
Na gangorra da vida
Ainda existe o limo
Verde e farto limo
Que prepara a queda
Fatal e inexorável.
Seja presente ou seja
Passado.
quarta-feira, janeiro 27, 2010
A dor
Chama-se poesia,
Chama-se suspiro.
Chama-se longa caminhada.
Chama-se moça na janela,
Chama-se fim do dia, o sol
Se pondo numa estrada imensa.
A dor se veste de chuva
Causa inundações
Destrói plantações
Invade campos.
A dor (poesia), se veste
De anjo e morte,
As vezes de sopro e sorte.
Sempre em cores
Insustentáveis.
sexta-feira, janeiro 22, 2010
O afastamento
Diamantina, Minas Gerais
Rio Negro, a 60 km de Manaus, dentro da selva amazônica
Porto de Manaus (Rio Negro)
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By Mauro Pereira da Silva
Me vi no espelho.
Era uma careta, amedrontada
Já com cabelos brancos
Iniciando a jornada
Da penumbra.
Já não existia o riso
De antes,
A rua de sol,
A casa verde-clara,
O cão amigo.
Já não existia a escola
No campo,
Os amigos jogando
Bétia, os rios
De domingo.
Um outro homem
Me vi,
Já não mais riso,
Já não mais coração
Amplo e claro.
Mas só um traço.
A sombra da dúvida.
O afastamento
Dos dias imensos.
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