domingo, março 23, 2008

Água clara de uma alma

O que dizer e o quanto dizer.
O que é necessário à felicidade
O exercitar do uso, a prova mais capaz
Da intuição e do que é extraordinário.
Rebuscada, a linha entre o amor e o ódio
Se mostra digna nota,
Algo parecido com um vidro de sóis
Calçamento de um enredo mais que raro.
Alma e canto, enigma precipitado
Onde se esconde o outro,
Não eu mesmo,
Que sou claro.

Cansado pelo longo esforço

Não calculo bem as horas.
As vezes deixo passar compromissos
Luas cheias, roncos de carros
Que se extinguem na rodovia.
Nada me impele além da água
Que cai do céu minucioso e sóbrio.
Sirenes tocam ao longe, um cão
Late, pesaroso, na casa vizinha.
Descobrirei acaso as formas?
O desenho da penteadeira
Lança sombras pelo quarto
Onde me escondo, ao largo.
Nele decorre horas e mais horas
(as que não calculo, nem pressinto)
e mergulho no escuro
duma tarde sutil que se apresenta
cheia de mim, explodindo a ponto
de invadir a rua, este ser amorfo
painel de cores e buscas
desencontradas.

Casa Diante do Mundo *

Abril.
Gerânios abortados,
Diante do remanso
Vagalhões atirando-se
Do céu borrifado
Em azul.

Mergulho.
Mostrador de sol
A casa da colina
Desenhada no fundo
Claro do horizonte
Cheio.

Através dele
Oceanos de ar
Montanhas recortadas
Mesclando em mim
Desenhos
incompreensíveis.

*(Título tirado do livro "A morte feliz", de Albert Camus)

REDEMOINHO EM FÚRIA

E aconteceu que os carrilhões silenciaram.
Ecos morreram, tudo se extinguiu de uma forma negra
Sequer os rumores continuaram.
Meu próprio corpo se desfez em movimentos lentos
E solenes,
Uma imagem espectral dando seus derradeiros apelos.
Em toda a face do mundo,
A noite declinava, os relógios se calaram,
Figuras foram solapadas de seus ornamentos.
Não havia mais musica e cores já não se via.
Todo o engano, é achar que sentir é particular.
Por isso amplas formas nos perseguem, nós que somos
Os trovadores de uma nova jornada.
Mascaras que ocultavam rostos, aquietaram-se
Fugitivos perderam as forças, os versos escaparam
Entre os dedos singulares do homem-brisa.
Acima do oceano, pairava o espírito de Deus.
Deslizando, gigantescas vagas formavam
Verdes e mais verdes de abril.
Pouso nele, me refugio nele, o espírito
Rebentado em gotas de luz,
Tempo e redemoinho em fúria

sexta-feira, março 21, 2008

A trilha e os deuses

O povo vinha cansado e de longe.
Sujos de barro, pela floresta imensa
Seguindo a trilha do rio e dos deuses
Olhando as luzes do céu e tendo como guia
Algumas montanhas longinquas.
Cansados vinham os velhos e as mulheres
Vinham as crianças e os animais de lombos
Carregados.
É necessário que se diga
Que se há nisso alguma filosofia
Nessa métrica terrível e insana
Não vejo o ponto, não vejo qualquer
Sinal de Deus, seja ele qual for
O povo cansado faz parte do mistério
Que sempre me deixou em dúvida,
A forma contínua e desesperada
De homens, mulheres, crianças e animais
Selados no mesmo destino torto.
Mas dizia Clarice, em suas escritas:
“o que eu não sei, é minha melhor parte”
Será?

quinta-feira, março 20, 2008

Poema de um papiro datado da 20ª Dinastia (1196-1070 a.C)

Meu irmão agita meu coração com sua voz,
o tormento apodera-se de mim.
Ele é vizinho da casa de minha mãe
e não posso chegar até ele.
Minha mãe tem razão ao dizer-me:
"Pára de olhá-lo!"
Mas meu coração sofre quando penso nele,
sou tomada pelo amor que sinto por ele.
De fato ele é um tolo,
mas sou como ele.
Ele não sabe o desejo que tenho de tomá-lo nos braços,
senão já teria escrito à minha mãe.
Ó, meu irmão, quisera eu ser dada a ti
pela Deusa de Ouro das mulheres!
Vem a mim, para que contemple tua beleza,
meu pai e minha mãe ficarão encantados,
toda minha família te aclamará em uníssono,
eles te aclamarão, ó meu irmão!

(Poema do papiro Chester Beatty I datado da 20ª dinastia (1196-1070 a.C.)

segunda-feira, março 17, 2008

A poesia ritual egipcia da XIX Dinastia (Reino Novo)

"Louvores a ti, Ha'pi,
que apareces nesta terra,
e em paz vens a nutrir o Egito.
Tu irrigas os campos que Rá criou,
dás vidas a todos os animais
e enquanto , como orvalho e chuva,
desces do céu, dá de beber
sem trégua à terra.
És o amigo do pão e da bebida,
dás força ao grão e o fazes crescer,
trabalho, forneces a todos.
És o senhor do peixe, o criador
da cevada, fazes durar os tempos
por milhões de anos.
És também o senhor dos pobres
e dos necessitados.
Se vieres a faltar,
os homens perecerão.
Quando tu apareces,
ouvem-se gritos de júbilo,
todos se alegram.
O teu poder é um escudo
para o homem".

sábado, março 15, 2008

Mimnermo de Colofon

Famoso flaustista, Mimnermo, que viveu na segunda metade do século VI, celebrizou-se na história da literatura grega por ter sido o primeiro elegiaco amoroso. Amante de uma bela flautista, chamada Nanó, pintou os seus próprios sentimentos, exprimindo os seus amores e a sua melancolia.
Seu tema predileto é a alegria de ser jovem.

"Que é a vida,
que é felicidade sem a brilhante Afrodite?
Possa eu morrer antes de perder
o interesse por essas doces coisas:
secretos amores, amáveis presentes,
belas flores da juventude.
Quando chega a velhice dolorosa,
que confunde a fealdade e a beleza,
o homem é dilacerado por
cruéis inquietações.
Os raios do sol não alegram mais seus olhos;
as crianças odeiam-no,
as mulheres desprezam-no.
Oh! Como os deuses fizeram
a velhice miserável!"

Poesia encontrada num papiro egipcio do século XIII

Diz a moça:

"Irmão,
gostaria de ir à lagoa para banhar-me
em tua presença
e deixar-te ver as minhas belezas
na fina túnica de linho
que, banhada, adere ao corpo.
Desceria contigo à água e dela não sairia
senão tendo entre os dedos
um belo peixinho vermelho.
Vem ver-me?"

Diz o moço:

"A irmã querida está lá embaixo,
um rio nos separa,
um crocodilo está estendido
num banco de areia.
Mas quando entro n'água,
caminho por cima dela;
o meu coração é corajoso na água,
e esta é como terra para os meus pés.
O amor que te consagro
me torna assim forte;
lança um sortilégio
contra a água e os crocodilos,
minha irmã, minha amada".

(Poesia egipcia do reino novo, séxulo XIII a.C)

domingo, março 09, 2008

Em Cunha, subindo a Estrada Real

O atalho que consta
No mapa amarelado em questão
Não define as ameias, nem os blocos
No imenso paredão
Que protege a Estrada Real.
Por aqui passaram milhares,
E milhares pousaram seu pés
Sob as acácias espaçosas
Que ainda hoje se formam.

Dentro do grande vernáculo
Existe talvez uma frase
Que defina melhor a posse
Dos homens pelas estradas
A posse imortal e voraz
Que os faz, cansados,
Despirem suas vestes
E mostrarem rostos aflitos
Em busca do ouro.

Mas ouro não existe mais.
Conteúdo perdido pela terra
Motivo de disputas mortais
Amarelo cru destacando-se
No sangue de alguns tolos.
Muitas vezes as escritas são vagas
E somente alguns lêem suas linhas
Raras mãos acenam ao longe:
Poucos escolhidos decifram
O mito da vida essencial.