quarta-feira, setembro 04, 2013

PEÇO SÓ O IMPOSSÍVEL



                              Foto by Mauro Pereira da Silva - Estiva Gerti (SP) - Setembro/13

Peço só o impossível, um barco em Ilha Solteira
Os sapatos pesados de barro, um momento entre a correnteza,
O pão na frigideira, uma oração erguendo-se como um poste
Entre as ruas do meu antigo bairro.
Em troca, peço apenas uma nesga de céu
Do céu de Andradina, de quando o sol bate nas nuvens
E fica aquela cor rasgada, avermelhada, pros lados
Do Mato Grosso.
Em troca deste coração velho de um homem velho,
- Apesar da pouca idade, com seus muros e suas mãos,
Sua pisadas e a simplicidade do coração -,
peço o que já antes pedira, um espaço de água,
Pequenos recipientes emergindo entre os barcos,
As amuradas queimadas e esquecidas,
Em minha antiga rua, numa direção que hoje já não vejo.

segunda-feira, janeiro 07, 2013

PLUMA


                                            Florianopolis - Saco dos Limões - Foto de Mauro P. da Silva

Estou quase certo de que havia uma luz em frente
Um antigo poste desenhado por mestres artesãos
Onde um dia colei uma massa de chiclete mastigado.
Fiquei parado no meio da rua olhando uma lua linda
Enquanto os carros passavam buzinando e tremendo.
Fui para perto dela, a menina loira de olhos claros
E ela me olhou por cima do ombro como se dissesse,
Sai moleque atrevido, você é quase nada, arreda o pé.
Olhei para seu vestido, seus joelhos lindos e alvos
Que escondiam segredos além de mim e do fogo.
Estou quase certo de que havia uma luz em frente
Onde seu Olívio, Dona Maria, Dora, meus amigos
Me observavam, tentando descobrir em mim a dor
Do amor que nascia, tão leve e tão suave como o vôo
De uma rolinha, ainda em pluma.

ANTIGAMENTE


                      Sombrio (SC) - Foto de Mauro P. da Silva

A entrada,
Continha detalhes de mesa
Soleiras,
Jogos dúbios
Uma mulher alva.
O elemento principal
Eram os olhos enormes
De espanto,
A pele translúcida
Os quadris dóceis
Sob meu toque
Minha religião
E sofrimento.

MEIO SÉCULO


           Capão da Canoa (RS) - Foto de Mauro P. da Silva

Sei que havia uma cerca
E depois dela
Uma violenta fome de luz.
Depois disso,
Todo sacrifício era pouco
Ofertas ao tempo
Que desenrolava-se
Além do paredão da igreja.

Eu tinha um furioso gosto pela vida
As mãos em êxtase,
Um desejo ilimitado
E uma vergonha quase nada.
Estremecia.
Encarnava a vida como um lápis
Desenhando numa folha
Branca de natal.

Cinquenta anos já.
O mirante é alto,
As luzes já começam a desfiar
Os tremores da aurora.
Cinqüenta anos.
Ainda desperto em nostalgia
Toques de beijos.
Ainda contaminado
Pelo agora e pelo sol.

Ainda tenso
Diante das inúmeras
Possibilidades.







quinta-feira, novembro 01, 2012

PACIÊNCIA


                                        Foto de Mauro Pereira da Silva - Promissão, São Paulo (Rio Tietê)

Só digo bom dia depois de ver o sol.
Sou muito paciente, mas quando acaba, acaba.
O tempo é minha maior fortuna.
Tenho vergonha de chorar no cinema, mas choro se estiver escuro.
Sou descomplicado: acho uma revoada de andorinhas um show imperdível.
Minha timidez pode passar por arrogância,
Mas ainda sorrio quando vejo um pássaro
Fazendo festa na calçada.
Amo corredeiras, pracinhas, rododendros jogados
Na beira das estradas de minha terra.
Meu coração é coração de caipira, sempre
E disso, não abro mão, por riqueza nenhuma:
Pôr-de-sol deslumbrado de vermelho
Louco de pintassilgos, de cantos e cantares.

(Entre Bauru e Lins, na Rodovia Marechal Rondon, vendo um pôr-de-sol inesquecível)



domingo, outubro 21, 2012

MINHAS FRONTEIRAS

Minha primeira máscara caiu e quebrou-se. Era de plástico, construída sobre a esperança e tinha os desenhos azuis da inocência. A segunda, também não durou muito: brincou com mulheres, gritou ao som de músicas, altas horas da noite perambulava pelas ruas em busca de algo etéreo e valioso que nunca encontrou. A terceira, era de bronze, cor do âmbar flamejante como a espada de Gabriel. Grudou-se em minha face com tanta energia que parecia ter nascido comigo. Mas um dia, também quebrou-se, virou pedaços de lágrimas, escuridão e medo. A máscara que tenho hoje mesclou-se a mim. Não há limite que diga onde termino e onde ela começa. Vive aos risos, ironicamente mostrando os dentes e os olhos pusilânimes de um esteta. Apossou-se de minha face. Apossou-se de minhas falas. Na verdade, ela hoje delimita minhas fronteiras e assim vivo, mesclado ao que sou e ao que não sou, equilibrista de um circo de horrores.

sexta-feira, outubro 05, 2012

QUASE HUMILDE

   Foto de Mauro Pereira da Silva - Entre Rios, Itapura, Fronteira do estado de São Paulo com Mato Grosso do Sul

Entre a nuca e o ombro
Tem um esconderijo
Uma fogueira ainda em brasa,
Cheirando a fim de dia,
Começo de noite.

Entre os cabelos,
O improviso da língua,
Desliza na dobra cálida
De um canto ameno.

Intensamente largado
Quase humilde
Em seu braseiro.

quinta-feira, setembro 06, 2012

UM TRAÇO


                                          
                                Foto de Mauro Pereira da Silva - Pitangui, Minas Gerais

A voz quase inaudivel procura cristais
Suficientes caldos que descobrem trens antigos
Jogados em uma velha estação.
Cercada de beleza os quadros pintam cenas
Que eu sei, já se foram, em longinquas valsas.

Quando cheguei, a tarde declinava, o sol
De domingo qüarava roupas em quânticas
Fórmulas, simplificadas em bilhetes curtos.
É só forçar os olhos para se ver as mãos de Deus
Desenhando tudo, de pequenas cores até
Absurdos mantras radicais.

Vagos planos me trouxeram.
Fotos desfocadas iniciaram roteiros
Preso a datas longiquas, manhãs de sol,
Ruas empoeiradas e hoje ilegítimas.

Mas sou protagonista e inicio um gesto
Ligo o que vejo, ouço e penso a tudo isso
E os trens, o bairro antigo, calçadas que pisei
Compõem um traço do que sou, talvez
Desbotado pelo tempo, mas sem duvida,
O melhor exemplo de mim mesmo.

EXTERIORIDADE



Foto de Mauro Pereira da Silva - Extrema, Minas Gerais

Tenho desejos esquisitos pela manhã, afã de um princípio qualquer de leveza, tentativa de ver além do que vejo, a visão crua do dia, do sol invadindo as macieiras, dos homens carregando enxadas e assobiando uma canção qualquer. Tenho desejos estranhos de macho, a poesia permanente á beira de minha cama, uma luz filtrada pela fresta da porta me avisando que o mundo exterior ainda existe e que eu, queira ou não queira, estou inserido nele, minha prisão e meu medo.

UMA IMAGEM DO TREM E DO DIA

                                    
                            Foto de Mauro Pereira da Silva - Pitangui, Minas Gerais


O trem passava ao meio-dia.
Pros lados da linha,
Uma eternidade de sol e pedras,
Braços acenando,
Sorrisos esperando o almoço.
Quando havia geada o capim brilhava
E meu avô me mandava cuidar das cabras,
O leite, sagrado, da família.
Ainda me dói aqueles dias,
De sol e canto,
De mãos e pelejas
Os bichos que corriam às vezes
Sob a luz da tarde que mais parecia
Uma lanterna de Deus,
descerrando a noite.
As ruas desatavam cores,
Com uma agilidade gritante
Felizes eram os dias.
Pros lados da linha,
Marcados pelo apito intenso do trem
Que passava, cantarolando nos trilhos,
Levando passageiros
Ninguém sabia pra onde.