sexta-feira, maio 18, 2012
UM DIA ELA ME OLHOU E DISSE
Foto de Mauro Pereira da Silva - Mirassol, Estado de Sp, abril/12
Especialmente para você
Um dia ela me olhou e disse:
As flores na janela,
Você viu as flores hoje?
E eu disse:
Sempre as vejo, lindas flores.
Mas você não viu nada mais nelas, hoje?
Ela disse.
E eu olhei para as flores,
E vi que as flores estavam do mesmo jeito
De sempre. Como flores.
Olhei para os olhos dela,
E vi, no canto simétrico dos olhos,
Aquela luz, de tantos anos.
Aquela luz, de tanto brilho,
Que a fez especial.
E dentro daqueles dois universo de sóis e luzes,
As pupilas lindas e claras,
Rodeada por rododendros,
Lírios, rosas, decorados por arrebóis
Vermelhos e lilazes, em explosões,
Matizes de azul, combinando
Com a tarde e a noite, o dia caindo.
E eu disse, extasiado,
Elas estão como sempre foram.
Como flores.
quinta-feira, abril 05, 2012
ALÉM DO PARANÁZÃO
(Foto de Mauro Pereira da Silva - Rio Tietê, quase na fronteira entre São Paulo e Mato Grosso, nas proximidades de Itapura, quando o poderoso Tietê une-se ao Rio Paraná)
(Minha modesta homenagem a Três Lagoas e suas vizinhas:
Ilha Solteira, Itapura, Guadalupe do Alto Paraná e Jupiá)
Um grande círculo rasga o céu para os lados de Mato Grosso
Desenhos sangrando rastros na divisa do Rio Paraná,
Onde a fronteira do possível dá outra perspectiva
Lente distinta de focos e pequenas lanças projetadas
Entre pontas de arvores, pedras sinuosas e rosas.
Morreu algo, percebo, mas não defino exatamente
Se o pequeno foi engolido pelo imenso
Ou se tudo aquilo é pleno de vida, mesmo assim
Transformado em água e gravetos jogados.
Em Três Lagoas, a imagem do Cristo quer ser carioca
Braços abertos apontando a cidade plana e azul
De asfalto, de gente, de carros e burburinho.
Parece de certa forma um cais de promessas
Granjeiros, homens hirsutos com suas botas
Seus chapéus panamá e calosas mãos de trabalho.
Mas me amedrontam as tempestades deste
Centro-oeste bravio e sedutor, farto de grãos e gado.
Me amedrontam as planícies imensas de soja e pasto
As estradas que não se findam, o sol causticante
Que nos projeta em várias figuras cansadas e sedentas.
A visão que tenho não é a visão de paulista cego
Pelo asfalto e suas lamparinas fosforescentes.
Olho com os olhos de filho da terra, talvez ainda
Desconfiado diante do verde violentamente belo
E das mocinhas morenas desfilando em suas bicicletas.
(Minha modesta homenagem a Três Lagoas e suas vizinhas:
Ilha Solteira, Itapura, Guadalupe do Alto Paraná e Jupiá)
Um grande círculo rasga o céu para os lados de Mato Grosso
Desenhos sangrando rastros na divisa do Rio Paraná,
Onde a fronteira do possível dá outra perspectiva
Lente distinta de focos e pequenas lanças projetadas
Entre pontas de arvores, pedras sinuosas e rosas.
Morreu algo, percebo, mas não defino exatamente
Se o pequeno foi engolido pelo imenso
Ou se tudo aquilo é pleno de vida, mesmo assim
Transformado em água e gravetos jogados.
Em Três Lagoas, a imagem do Cristo quer ser carioca
Braços abertos apontando a cidade plana e azul
De asfalto, de gente, de carros e burburinho.
Parece de certa forma um cais de promessas
Granjeiros, homens hirsutos com suas botas
Seus chapéus panamá e calosas mãos de trabalho.
Mas me amedrontam as tempestades deste
Centro-oeste bravio e sedutor, farto de grãos e gado.
Me amedrontam as planícies imensas de soja e pasto
As estradas que não se findam, o sol causticante
Que nos projeta em várias figuras cansadas e sedentas.
A visão que tenho não é a visão de paulista cego
Pelo asfalto e suas lamparinas fosforescentes.
Olho com os olhos de filho da terra, talvez ainda
Desconfiado diante do verde violentamente belo
E das mocinhas morenas desfilando em suas bicicletas.
domingo, abril 01, 2012
UMA VOZ
Foto de Mauro Pereira da Silva - Rio Claro - São Paulo
Fazenda dos Prados, dentro do Horto Florestal
Fazenda dos Prados, dentro do Horto Florestal
Ela não estava mais lá.
Uma voz dentro me dizia:
Destrói teu sono, apressa-te e constrói a noite.
Mas havia uma porta corrediça e jogos,
E choro e morte e a terrível mão do tempo,
Desejei que o dia passasse, que a vertigem silenciosamente branca
Fosse depositada no assombro.
Havia uma coisa qualquer sobre a mesa.
Fiquei só e imóvel.
E ninguém, através das pontes e dos rios,
Que se fizesse sol ou porta,
Me salvou desta grande noite.
A MOÇA ATRÁS DA JANELA
Foto de Mauro Pereira da Silva - Mandirituba - Paraná
O prelúdio era a noite
E braços se estendiam em sacrifício pelas ruas.
Já houve um mar, há tempos,
Hoje há apenas um rio e grama,
E quedas estreitas neste mar silencioso.
Ela despencava no sagrado, bela,
Objeto do meu desejo, eu que sou
Espectador deste mundo coberto
De urzes e furacões.
Vejo-a, mas, exasperado pela sua
Pouca compaixão, jogo meu anseio
De imediato e anterior, pelo tempo,
Deliberado e intrínseco.
Um rio se alarga em meus lombos:
Um fogo queima, insone.
Uma casa impossível adormece.
quarta-feira, março 28, 2012
TIRAS DE SAUDADES
Paranapiacaba - Santo André - São Paulo
Foto de Mauro Pereira da Silva
A glória de comer um escondido
Me deliciando com a massa macia
Recurva, que se derretia na boca.
Havia sinais de viagens, romances, álbuns
Meu selos cuidadosamente guardados
E alguma coisa dentro, uma esperança do dia seguinte.
Florestas e heróis, bala sete belo, aquários dos amigos
Dimensões enormes dos dias, que eram sempre ensolarados.
Todos acreditavam em Django, Sartana, no velho cinema da praça.
Das profundezas saem as malas feitas de tiras de saudades,
Em ritos, eu sei, que só eram mágicos dentro de mim e do sol.
Mas eu gosto tanto.
domingo, março 25, 2012
COM O PENSAMENTO EM ANA CRISTINA CÉSAR, POETA MAIOR
Interior de Santa Catarina
Foto de Mauro Pereira da Silva
Sentí muito. Seus poemas eram como um soco no estômago.
Desfiavam linha por linha os enigmas desse eterno esconderijo chamado homem.
E fiquei pensando:
como pode um poeta cair no lugar comum dos idiotas?
(A vida deve ser desmembrada como uma frase
e reconstruida
unindo-se palmo a palmo linhas que
apesar de tênues
fixam no âmago a necessidade de viver
e de não querer chegar ao fim
sem a precisa consciência do meio).
Que a paz esteja contigo, Ana.
O QUE É COLORIDO
Florianópolis - Santa Catarina
Foto de Mauro Pereira da Silva
sábado, março 24, 2012
IMPRESSÃO
Florianópolis - Santa Catarina
Foto de Mauro Pereira da Silva
O rosto no portão branco da casa era um
Pergaminho,
Caminho apaixonado de letras e poemas.
Uma pintura.
Onde o tempo escrevia e apagava.
Dentro de si as borboletas gritavam como pássaros
AS ANTIGAS PORTAS
Ponta Grossa - Paraná
Foto de Mauro Pereira da Silva
O burburinho das risadas impregnam o ar,
Tirando das toalhas o vincos de medo.
Toda a rua se enche de fogo, pés desenhando
Pontos de exclamações e fugas.
Não importa o mar.
Barricadas na planície de pessoas
Erguiam ondas letais, maquinas espantosas
Que convertem as pessoas e seus sonhos.
Eles comem a comida. O Deus que perseguem não está
Onde procuram.
Não está na praia, nem no campo, nem no céu.
Tem apenas movimento, esses homens em sua busca.
Bebem e comem, porque amanhã morrerão, pensam.
E inventam um Deus, inventam uma fogueira,
Inventam um tecido espantoso e complexo.
Mas Deus está morto, não há Deus,
E o campo se fecha porque não tem luz nem lanterna
Que os ilumine.
NA FRONTEIRA
Tarde na roça, perto do rio e sua folhagem.
Um inverno que começa e seu silêncio,
Uma safra de trigo completamente madura
Um silêncio amarelo de flores e ondulações.
Por dentro um silêncio de pano roxo
Uma coisa diferente de nossa chuva
O solecismo perdido nos rincões da palavra
O silêncio da palavra. O silêncio da cidade,
Que é apenas uma estação de mim mesmo.
Pedaços de silêncio desenhando um pôr-de-sol
Caindo sobre a estrada cheia de carros e gritos
Vento fresco, um quadro escancarado da alma.
Um silêncio que se quebra e se pronuncia
Melhor do que eu, melhor do que o que sou.
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