domingo, junho 14, 2009

Pequena oração de domingo

(Foto de Mauro Pereira da Silva)
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De vez quando, Senhor,
Deixo de olhar pequenas coisas
Onde repousa imensa parte do teu poder.
De vez em quando me esqueço de beber
Água de chuva, poção mágica do céu,
Deixo de sentir cheiro de mato e em mim
Só fica o cheiro podre dos prédios.
De vez em quando não observo luas
Ou mares, ruas ou sertões, nem andorinhas
Na revoada eterna que fazem em torno da luz.
De vez em quando me lamento, caio em cruz
E choro borboletas, numa ânsia sem fim
Por eternidade e beleza.

domingo, maio 10, 2009

Um olhar vermelho de quem chegou

(Foto de Mauro Pereira da Silva - "Castelinho" em Itapura, interior do estado de São Paulo, divisa com o Mato Grosso)
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João 9:25
Respondeu ele: "Uma coisa sei: eu era cego, e agora vejo".


Vim cansado e só.
Cheguei com impaciência e sorte
Esculpido em mármore como um fauno.
Nada há de sinais, nem de mesas,
Nem de outros
Velhos marinheiros como eu.
Nem relógio trouxe, para que o tempo
Estanque os cetins e os balaustres
Os relatos de muitas histórias.
Vim cansado e só, mas cheguei.
Nem prata nem ouro, nem carruagem
De madeira nobre, tampouco,
A princesa eu trouxe.
Mas cheguei, cheguei,
Como um cão perdido em mapas
Mal desenhados e frouxos.
Agora deito-me e descanso
Modestamente baixo as pálpebras
E olho para dentro deste enorme
Mar, necessário, modelado em cachos
E frescas pinturas quatrocentistas
E perplexas.

O rio amadurecido e solene

(Foto de Mauro Pereira da Silva - Rio Tietê, quase na fronteira entre São Paulo e Mato Grosso, nas proximidades de Itapura)

Dizem que além da torre existe um profundo espaço
Zangado e áspero, não tão jovem nem tão regular.
É uma voz quente de sol e jardins estranhos
Nectarinas de véspera e difíceis campos de eitos.
Lá se perde a noção de espaço e tempo, anos,
Fragmentos de risos e caminhar de flancos.
Lá se ajusta o que é indefinido e sacro,
O que é bonito e ousado, a malicia sagrada
Do sorriso e de bailes que não se findaram
Mas falta um selo, o carimbo que autentique
E transfigure os loucos concertos amorosos.

Toda a sua atenção

(Foto de Mauro Pereira da Silva)
"Teu coração bate dentro do meu
numa luta que não tem fim."
João Ricardo Scortecci de Paula

Na boca parecem curvas
Melancólicas e velhas.
Cinzento, o anjo desenhado
Com spray, no muro hirto
Carrega a paisagem
Para dentro de si mesmo,
Um diamante pela metade.
Um velho.
Uma moça.
Uma curva intolerável
Como resposta ao fundo
Do mar insano e só.
Não há respostas,
Eu sei
Na longa noite.
O fato persiste e é apenas
Uma espera descolorida.
Distante, a voz clama.
Soa longe o som
Dos anos.

Tempestade antes da forma

(Foto de Mauro Pereira da Silva)
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O mundo inteiro declina,
Enche os olhos até a borda clara e aguda
Silenciosamente, mostrando paredes como moinhos.
Tão verdadeiras são as manhãs,
De sol batendo na casa, o amor plantado na soleira,
Desabrochando no pendor da maturidade.
As frutas amadurecem.

Deslizam entre os dedos o que é novo e farto
Verdadeiro e calmo, matéria e paixão extremada
Água movendo moinhos e cânticos,
Botões de flores crescendo entre tijolos,
Respirando suavemente a ventania
Do teu corpo.
As frutas amadurecem,

Intercaladas palavras estão cheias
Do espírito e das rochas, das pedras,
Vestíbulo onde o amor adormece.
Uma caixa de frutas
Desenhadas na boca
Com uma passagem etérea.
Portas abertas para o fluir
E o desejar do templo, o invadir
das casas.

segunda-feira, março 30, 2009

Os fantasmas da casa da memória

(Foto de Mauro Pereira da Silva - proximidades de Maringá, nordeste paranaense)

Eu morreria ouvindo pingos d’água
e perguntando coisas,
tentando entender a tempestade e o raio
o desconhecido céu carmesim que há em mim.
As manhãs onde, mocinho, descia
Do ônibus da Reunidas e caminhava,
Mochila nas costas, mastigando o pão
Cheiroso e quentinho daquela padaria
Da rua Paes Leme, perto da linha do trem.
A luz dos deuses me daria em minutos
Respostas que não sei, uma tristeza
Quase selvagem, germinada nos dias
Longos e desesperadores de hoje.
Eu morreria por um momento que fosse
Para ver as mocinhas risonhas desfilando
Pela rua Bandeirantes, envoltas em sol,
Moças flutuantes em sua bicicletas
Pequeninas na distancia do tempo.
Minha mãe e seu vestido cinza.
Minhas tias e seus cabelos com laquê.
Minha avó e sua língua afiada.
Meu avô e seu chapéu Panamá,
Combinando com o terno claro,
A caminho da igreja.
A linha do trem e os homens
com suas biblias, caminhando.
O pontilhão, o cantar do galo
na madrugada imutável.
O lugar ou a rua onde eu parei
e não me achei mais.

terça-feira, março 10, 2009

Para além da Marginal Tietê

(Foto de Mauro Pereira da Silva - Represinha do Lago Igapó, Londrina, Paraná)

Hoje o céu vestiu-se de mortalha
cores azedas, o sul raivoso despejando água
sobre uma São Paulo aflita.
Novos itinerários.
Vestigios de alagamentos, pessoas
em silêncio refletindo sobre o caos.

(Onduladas casas ainda resistem
Ponto a ponto, no ato de esculpir um milagre
De dentro, vomita enxurradas.
E derrama sobre as pessoas uma outra
Cidade, ainda mais cinzenta e assustadora).´

É necessário orar e pedir.

A cidade que ainda resiste

(Foto de Mauro Pereira da Silva - próximo a Londrina, Paraná)
Persigo uma imagem:
desdouros descobertos
um minuto a mais de belo
reconhecer um canto
onde a palavra existe.

Por acaso também me chamo Rua
e existo onde é necessário ramos
arcos, vozes e paixões noturnas,
soma de formas e cantos febris
memorias que trago mas não traduzo.

E nada mais há de mortos
ou diálogos congelados, fotos
amareladas descrevendo noites;
minha cidade envolta em neblina
traços perdidos ao por-do-sol.

Mas descrevo o que não ressurge.
Flechas marcando o instante
a banda na praça, as moças vestidas
de carmesim, supostas e necessárias.
Tranquilas imagens alternando olhares


Em plena Avenida Guanabara, sob o céu.

quarta-feira, março 04, 2009

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Divagações de fevereiro

(Foto de Mauro Pereira da Silva - Rio Paraná, divisa dos estados de São Paulo com Mato Grosso do Sul)
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Hoje pude ver o céu.
Tremores para as bandas do sul,
nuvens mudando de cor,
de azul dourado
para roxo deslumbrado.
Há vários niveis e formas,
nuvens carregadas
bojudas e amedrontadoras.
Nuvens que formam rostos
outras que se esvaem
em múltiplas faces temidas.
Urgentes andorinhas voam.
Abstratas, elas parecem um mar,
Cais e degraus desenhados
por um criador poderoso.
Espirais neste céu desenham rios
vejo nelas o rosto de Márcia,
Amiga que morreu jovem,
de José, que se foi também.
De João, de Pedro, Luís.
Tantas lacunas e vazios.