quinta-feira, janeiro 15, 2009

Anotações de um caipira - parte 4

Parte 4. Para sempre o que é incerto

Chove a cântaros.
Edifícios inteiros desnaturados,
singularmente mortos
Pelo cinzento dia.
O efeito da chuva me lembra
ferros amanhecidos,
Dobrados pelos dedos de um
Deus inquieto.
Pequenas latas, palitos,
papéis, retalham o chão.
Destinos bobos
que assemelham-se
ao nosso
De tão incerto, de tão indelével
que se torna.
Tánatos, o Deus na morte,
nos ronda entre o jardim e o café.
Tenho medo dele,
tenho medo desta ronda
sinistra e sutil
Da aproximação do sono,
a sedução que nos leva
Para sempre pelo longo túnel
escancarado.
País estranho este.
País sinuoso que me traz
a chuva
Neste domingo rígido,
lacônico,
Próximo demais,
próximo demais,
De minha fortaleza,
que ninguém sabe
Ou sequer conhece.

Anotações de um caipira - parte 5

Parte 5. O uso calmo do chão

 
Alongo a vista e vejo para lá do sitio
Pontos brancos, vagos e indistintos
Trouxas na cabeça, marmita sob o braço
O caminhar moço de catador de milho
A prova de que se existe é esta:
O tempo parado, figuras e onze-horas
Borboletas no jardim da casa
Heras, rosas, pequeno gramado
Escondendo bolinhas de gude e sonhos,
E um menino olhando as mini-saias
Era novamente maio, flores
Saindo pelas cerquinhas de balaústre.
Era meio-dia, o sol a pino.
Era Andradina.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Anotações de um caipira - parte 6

Parte 6. Nem dia nem noite


Ainda não era demasiado tarde.
As janelas se fecharam
As ruas ficaram subitamente quietas

Os carros vieram
E espalharam ciscos, gravetos
Pela rua Acre, naquele fim de tarde.

Pigmentada no céu
Havia uma cor intensa
vista pelo bairro inteiro,

Uma cor daquela
Para os lados de Planalto
Após a linha
Após o trem passageiro passar
Apitando, como uma flecha
Em direção a Murutinga
Valparaíso, Bauru

(E o bando de meninos
Correndo atrás, atirando pedras
Vendo as pequenas cabeças atrás da janelas;

Vendo as pequenas silhuetas
Sentadas e ficando pequeninas, pequeninas
Perdendo-se na linha do ocaso).

Mas está ficando tarde
E toda a solidariedade do mundo
Escreve-se ali entre a poeira
Escreve-se nos barulhos de pratos
Chamados de cachorro
Chamados de criança
(fulano, vem aqui menino!)
a vida do bairro explodindo

E o momento parece um quadro
uma pintura em ouro fresco
naquele janeiro ou fevereiro
tão direto, tão verdadeiro
que dilacerava os olhos.

Era tão direto
Tão infinitamente claro
Que até hoje a imagem, o desenho
Ainda se descobre
Em meu peito
- Uma marca de homem
E de esparsas feras:

Uma marca de som
Do que ainda não foi esquecido
e que permanece absolutamente
Intacto
Em alguma parte minha represada.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

A prova

(Foto de Mauro Pereira da Silva - Campo de trigo)
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Esta face marcada de sinais,
é a prova de que não desisti.
Mesmo os barcos vazios,
o carro solitário,
a casa estranha aos meus olhos,
demonstram o quanto
ainda busco Deus.
O rosto talvez não dure
tanto quanto a angústia
de ver a mesma lua,
a mesma cerca,
as praças de minha infância
já amarelada,
que construíram
o homem que sou
ou que não sou.
Mas Deus está em mim,
em mim que sou curto
de paciência,
em mim que grito
e esperneio e digo
que detesto esta cidade.
Talvez a avenida vazia
seja a expressão
mais crua de mim mesmo.

sábado, janeiro 03, 2009

O velho caminho no Bairro de Santa Cecilia

(Foto de Mauro Pereira da Silva - Estrada entre Selviria e Três Lagoas - Mato Grosso do Sul)
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O velho caminho
ainda existe.
A serra.
A terra ainda
é a mesma.
Deixo as marcas
dos pés
e caminho
tentando encontrar
o que deixei
por aqui,
por esta estradinha
cercada
de pés de mamona
e onze-horas
vermelhinhas.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Galhos verdes de mamona

(Foto de Mauro Pereira da Silva - A caminho de Andradina)
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Te mando café moído, cheiro de capim cortado,
Onze-horas abrindo sob o sol de setembro
Arrebol cor de sangue tendo ao fundo
Uma revoada de andorinhas alegres.
Te mando arroz batido em pilão,
Saco de mexericas, goiaba da boa
Melão vermelhinho, açúcar mascavo
Um pouco de areia da rua por onde
Andaste em pequeno, descalço e feliz.
Te mando rosas, azaléias, mamão de vez,
Suco de gabiroba e de tamarindo verde
Galhos verdes de mamona, um céu roxinho
Um redemoinho vespertino de quando
Voltavas da escola (o Álvaro Guião)
E o asfalto até derretia de tanto calor.
Te mando algo que hoje não tens, algo
Que sentes que falta, algo que o dinheiro
Não compra: mando a ti mesmo,
A imagem daquele que se foi para sempre.

domingo, dezembro 28, 2008

Luzes de pirilampos


Exatamente quando o vermelho da estrada me atinge?
Os cupinzeiros destacam-se no pasto verde escuro.
O ruido do motor do carro entrando na noite profunda.
Mato Grosso, Selviria, Três Lagoas, ponte sobre o rio.
Céu escuro como breu, luzes de pirilampos em paralelo.
Meu coração de caipira tremendo entre o balançar das folhas.
De caquizeiros, jaqueiras, mangueirais e rostos distantes
De quem já partiu e jamais verei de novo, jamais.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Arquivos do medo

(Foto de Mauro Pereira da Silva - Entre Ilha Solteira e Andradina, olhando para os lados de Pereira Barreto, esta nuvem estava se precipitando (chovendo), a mais ou menos uns 60 km de distância)
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Repentinas nuvens surgem apoiadas por decessos.
Destroços enormes de céus marcam os aviões perdidos,
Ataques aéreos em pleno vislumbre de dezembro,
Descargas de chuvas, brigadeiros marrons-lilazes
Impedindo comboios de pássaros desnorteados.
Defesa não há nenhuma sequer nem haverá.
Meu abraço, minhas pernas, meus olhos entristecidos
Miram além do horizonte, para trás dos pastos secos
Estrategicamente inseridos sobre o mar de árvores.
Vislumbro algumas cenas, poucos traços que não se formam.
Eu, talvez ainda desfeito em pó e corpo, andaluz trêmulo
Tentando entender o que significa todas estas cores e gestos.

domingo, dezembro 14, 2008

Nenhuma andorinha

(Foto de Mauro Pereira da Silva - Campo próximo a Selviria - Mato Grosso do Sul). para aumentar, clique 2x na foto.


Símbolos cruzam a rua.
Carros, gente, crianças
Com seus livros escolares.
Além dos prédios uma
Nesga azul de céu.
Árvores se destacam
Nas calçadas de cimento.
Nenhuma andorinha.
Nenhum grito de luz.
Nada que marque
O design roxo-lilás
Do filme.

sábado, dezembro 13, 2008

Oração de um refugiado

(Foto de Mauro Pereira da Silva). para aumentar clique 2x na foto


Não acredito em pedras.
Só meu nome não basta
Para rugir trovões.
Declaro morta a palavra.
Diante do tempo nada resta:
Só os justos não movem moinho.
De relance me atrevo.
Não espero compaixão
Já que a vida me basta.
Não acredito em pedras
Nem em mais espinhos
Ou orações dos santos.