domingo, novembro 02, 2008

Passamanarias

(Foto de Mauro Pereira da Silva)
.
para aumentar clique 2x na foto



Aflitas figuras compõem o quadro
Da tarde sonolenta, dos pés marcando
A grama verde úmida de pingos.
Crianças andam de bicicleta e jogam bola.
Velhinhos da terceira idade tentam se recompor,
Mini-saias astuciosas escondem as pernas
Morenas das meninas do colégio em frente.
As formas são excessivas, são genéricas
Passamanarias, compõem-se de cores,
De cheiros, de deuses nos observando
Em variadas poses inexatas.
A finitude me atinge, eu que sou plasma,
eu que habito recônditas cavernas
e solitários muros.

terça-feira, outubro 28, 2008

Vida de gado

(Foto de Mauro Pereira da Silva - Campo próximo a Valparaíso, interior do estado de São Paulo)
. Para aumentar, clique 2x



Passa o vaqueiro aboiando
Quase invisível na sela.
Lépido o dia desenha
Pequenas escamas, sóis
Particulares, polvos
Fazendo da cara das pessoas
Um ricto de medo e angústia
Não se sabe se pelo homem,
Ou pelo boi desesperado
Que foge, sem ter para
Onde ir.

sábado, outubro 18, 2008

A arte e a dinâmica da rua

(Foto de Vasco Abranches - Lisboa - Portugal)
www.olhares.com/VascoAbranches


Vagos sons se diluem na mão que passa.
Alguns desenhos na folha de papel
determinam cantos, sopranos alertas,
girassóis amigos. Assim amargo o dia
passará lento e as pessoas não notarão
seu tardar fatal: absortas vivem seus
miseráveis becos, inertes sobressaem
em suas negras capas. Um vendedor anuncia:
“Mexerica, comadre, ao menor preço da cidade!”
e sua voz anasalada pelo auto-falante,
despe as últimas fraldas da rua.
Não adianta.
Atrás do muro sabotadores constroem
bombas de tempo e pintam sangue
nas portas, adoçam guerras
com fragmentos de lágrimas. Desespero
é coisa fria, iceberg de guerrilheiros.
Em minhas lutas, as letras não são trocadas,
apenas as armas são outras, as mãos são outras.
“Vagos sons se diluem na mão que passa”.
Oremos.

segunda-feira, outubro 13, 2008

Dias Perfeitos

Parque Passaúna - Paraná

Represa do Passaúna - Paraná


Represa do Passaúna - Paraná



Parque de Vilha Velha - Paraná



Via Dutra - nas proximidades de Taubaté



Represa do Passaúna - Paraná



quarta-feira, outubro 08, 2008

O presente e o futuro

Quero oferecer escritas solenes
Triunfantes frases guiando o som
Pelas estradas habituais que vejo.
Palavras sufocadas não vingam,
Letras jogadas sobre a mesa
Parecem frutas de tão verdes
Cifradas no olho de quem escreve.
Estou disposto a formar nova casa
Sobre rochas, sobre guias,
E levar nos ombros as histórias
Que puder levar, leves ou pesadas
Findas ou jamais iniciadas.

Horta


A palavra não é plena
Não seduz o poeta
Nem alimenta o poema.

A palavra não é santa
Legitima o sangue
Do que se planta.

A palavra absorve as cores
Plenário fecundo
De variadas flores.

Examinemos a palavra:
O poeta faz que planta
O que infelizmente não lavra.

sexta-feira, outubro 03, 2008

Pequena imagem de um dia de sol

(Foto de Ana Rita Ribeiro - Lisboa - Portugal)
www.olhares.com/anarita02


Este longo caminho, onde a noite desce
decorado com flores de pessegueiro
tendo ao lado a simetrica linha
do trem cansado que passava à meia-noite
e ia para os lados do Mato Grosso.
Uma luz distorcida jogava clarões sobre
as parreiras entrecruzadas, os bosques
onde Moura Andrade, no inicio do século
plantou sua fortuna como Rei do Gado.
Caminhos emergem entre ondas de verde
gado branco e poeira vermelha
que distorcem as formas das pessoas
longínquas, uma ilusão causada pelo
espanto de Andradina, atmosfera amorfa
ramos entrelaçados e sólidos de mato.
Forças poderosas crescem ao lado do sol
Rasteiras mudas fecundam raizes
Dunas crepitando esfumaçadas ruas
que não esqueço, mas alimento e desenho
e na memoria conservo e acaricio.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Tipicamente mundano

Estar um pouco é Não Estar.
É um recado de empréstimo, recomendações frescas
De algo que não se repara. Estar um pouco é Não Ser.
Penosa espera de um quadro, uma emoção melancólica
Em uma noite toscamente fria. Estar um pouco
é grave convenção urdida nas trevas.
Calma e desespero, sono, uma sensação
estranha de não-ser, um adoecer gravemente.
O poema não composto, a noite desestruturada
e morna, a mulher sem amor, o amor sem sal.
Estar um pouco é um não-favor
Um filho que não quer nascer. Uma constante
provação de dores e poemas quebrados.
É dormir muito e acordar jamais.

terça-feira, setembro 23, 2008

Poema vespertino

(Fotos de Zé Bicho - Vendas Novas - Portugal)
www.olhares.com/zebicho



O mar, o mar estende suas mãos longas e azuis
Longe de mim, escondendo-se numa cerimônia
Onde só se ouve suas ondas, pestanas de uma
Mulher de olhar azul.
Todo o mundo sabe que significado tem essa pista
Embriagada de sal, resquícios presentes na pele
Na vida, nos pensamentos recentes
E nas promessas.
Dia e noite o barulho fringe, desposa a noite cintilante
Mutila a areia e tira a paz dos mortos,
Transforma em amante com simples toque
E nudez intolerável, a prometida terra do mel.
Embrigado de mar
Embriagado de algodão e frutas azuis
Agudamente suaves, miragens tremeluzentes
Atrás do vasto circulo pálido,
Um coro de luzes marca o breve instante:
O medo de ser e desaparecer em suas ondas
Ou de se atirar totalmente imerso
Em suas asas,
na obscura mistura de salgados.

quinta-feira, setembro 11, 2008

Jamais o mesmo rio


Algumas coisas se parecem
Pequenos vasos
Pois se caem e se quebram
Jamais serão novamente
A mesma coisa
Como a historia do filosofo
Que disse jamais se banhar
No mesmo rio duas vezes
Algumas coisas compõem
Pequenas tragédias
Que formam a vida
Sempre diferente na essência
Mesmo parecendo ser igual
A tantas outras vidas
Na verdade tudo é etéreo
E ao mesmo tempo cruel
Em sua plenitude de ares
E ventos.
Tudo é sagrado.
Mesmo o vaso que se quebra
Tão facilmente.