segunda-feira, junho 02, 2008

AO SUL DA CORAGEM

(Foto by João Garcia Conde de Pinho - Águeda - Portugal)
jc_olhares@clix.pt


Abrir a caixa, deixá-la às escâncaras.
Dilatar a porta, explodir as janelas opacas
Destruir a comédia que se representa,
De modo tão vil e desigual.
Construir novo terreiro, novo telhado
Que não seja de vidro e germinar rebentos
E renovos, novas crias.

Abrir as formas que há tanto tempo
Nos empesteiam e nos denigre
Abrir as gavetas, queimar aquelas roupas
Antigas que nos cobriam o corpo imenso
E podre, tantas vezes banhado e perfumado
E já prometido para a terra.

Abrir a caixa e colocar nela antigos lixos,
Papeis insanos, títeres,
Abrir a rua
Destrancá-la, construir calçadas
Onde pontes iluminem velhos, sentados
Em seus portões de pinho.

Radiante, seguir o mastro do sol
E se deixar cair sobre a grama verde
Do quintal defronte,
vestido de cores vivas
e lambuzadas de mel
e gritos.

Quarto a dentro

(O autor é de Lisboa - Portugal)
www.rgoncalves.net www.flickr.com/photos/rgoncalvesnet/
Contacto: rgoncalves.net@gmail.com

Enveredo por lugares
Moldado pela criança que pulsa
Como uma muda de planta
Taças compridas de licores
Finos
em mim.

Enveredo por pontos, sóis
Homem que encontra sósias
Fortunas, por onde passe
Ventos
Travessas de flores
E bandas.

(a casa que habito
tem uma sala tamanha
onde guardo corações
e amigos
onde eu mesmo me guardo
atemorizado
e só)

Candelabros se postam
Entre pacientes dobras.
Enveredo por lugares
Que eu mesmo não sei
Se haverá regresso

Mesmo quebrado
Entre as persianas
Desgastadas pelas luzes.

segunda-feira, maio 26, 2008

Viagem a Serra do Rio do Rastro / Orleans / Lauro Muller (Santa Catarina - Brasil)






































































































































































































Para se chegar lá, saindo de São Paulo, pega-se a BR 116, segue-se pela Rodovia Régis Bittencourt até Curitiba e depois até Tubarão. Depois disso, segue-se sentido Gravatal, Braço do Norte, Orleans, Lauro Muller e Serra do Rio do Rastro. O percurso total é de 840 km. Mas vale a pena cada quilometro rodado.A história do lugar começou em 1870 com a vinda de algumas famílias do Rio Grande do Sul. Abriram uma trilha na Serra Geral que possibilitou a passagem de pedestres e cavaleiros com suas tropas e mulas a fim de realizarem a troca de mercadorias no litoral, mais precisamente em Laguna.

O nome Jardim da Serra originou-se pelas belezas naturais do município e de uma imensa mata de araucárias existente próximo a ele. Como fica a 11 km da Cordilheira da Serra, associou-se esse jardim à serra. Alguns madeireiros que se dedicavam à extração da araucária, nas décadas de 40 e 50, instalaram um cabo aéreo, semelhante a um elevador, nas proximidades da Serra do Rio do Rastro para descerem toda a produção e esta era transportada para seu destino, geralmente Porto Alegre.

Onde Comer
A sugestão é a Churrascaria Cascata na beira da Rodovia SC 438, km 121, tel (48) 3232-0123.
O rodizio é feito de forma diferente da paulista, pois o cliente vai até a churrasqueira se servir de carnes típicas da serra, defumadas e do tradicional Frescal.

Orleans
Nasceu no Império de D.Pedro II, com a criação de uma nova colônia, um dote de terras de 98 léguas, presente de casamento do Imperador à Princesa Isabel e ao Conde’Eu. O nome Orleans foi escolhido pelo próprio Conde, em homenagem à sua cidade natal, na França. Colonizada inicialmente por italianos, a seguir vieram portugueses, alemães, poloneses e letos. Outrora, servida por estrada de ferro que atendia a região carbonífera, teve sua economia baseada, na época, na agricultura, suinocultura e extração de madeira.

Sua privilegiada localização geográfica, entre a Serra e o Litoral, Orleans desde a época era importante entreposto para o comércio. A demarcação original do dote de terras abrangia Orleans, parte de São Ludgero, Grão Pará, Rio Fortuna, Santa Rosa de Lima, parte de Anitápolis, Armazém, São Martinho e São Bonifácio. O nome e o local exato da cidade foram escolhidos na única visita do Conde à nova colônia, em 26 de dezembro de 1884.


quarta-feira, maio 21, 2008

Céu de alecrim

Viajante
Ando por estradas de pedras
Anseio paradas, mulheres lindas
Água fresca e uma sombra profunda.

Viajante
Nada me pára, nada me detalha mais
O horizonte que meus olhos
De homem abismado.

Viajante
Me calo, surdamente, diante
Dos inúmeros santos, homens
Diferentes de mim, homens
Puros em sua essência.

Viajante
Me perco entre verdes e sombrias
Serras, lagos, rios, palavras
Que me devoram devagarinho.
Crepúsculos vermelhos
Caindo do céu de alecrim.

segunda-feira, maio 19, 2008

Quando cai um meteorito

(Dedicado a Doraci Trentin Trancoso, minha primeira professora, queridissima, que me ensinou as primeiras letras)

Algumas coisas me causam
um sentimento de temor
E de respeito, ao mesmo tempo.
Certas igrejas solitárias, brancas
Com suas aldravas de prata.
Certos crespúsculos sorrateiros
Que chegam silenciosamente
Em tardes especialmente tristes.

Algumas coisas me causam
Um certo constrangimento.
Veias de prata correndo
Sob a lua e as nuvens
Num céu escandalosamente
Borrado de marrom celeste.
Minha primeira professora
Que me ensinou as primeiras
Letras e seus mistérios.


Me sinto atordoado com
Algumas coisas estranhas
Que me assolam:
O vento que me passa rente
Certos assoalhos escorregadios
Cheiros de comida a tardezinha
Temperos, vinagre, sais.

Sangro luzes e altas redes.
Evoco sons e formidáveis veios
Desenho na vidraça pássaros
Que jamais conheci, jamais.
Só me resta um ar lúcido de cima
De algo que me caiu, dos céus
Um grito, um pedido de ajuda
Desenhado no final do dia
Em danças espetaculares de sol.

E sou pequeno para tantos
pedidos de socorro.

domingo, maio 18, 2008

DELICADAS FOTOS







(Dedicado à região de Rio Hipolito - Orleans - Santa Catarina)

Há um todo reluzente e amigo
Que mesmo depois que vamos embora
Ainda cintila, maior que nós mesmos.
Há um imenso caldo, despojos, como
Numa imensa guerra que travamos
Entre finas e delicadas fotos
Vagas sensações de partida.

Assim como certas paisagens
De nossa infância distante,
As palavras medem o Ser
Que hoje somos,
Nem maiores, nem menores
Do que éramos, quando a luz
Dos dias nos inundava em nossa
Terra natal.

Pequeninas coisas nos marcam:
O gado de manhã, mugindo
O leite produzido, a roça na geada
Cedinho, as mulheres na cozinha
Fazendo com que o cheiro do café
Novo, encorpado, flutue pelas
Cumeeiras das casas
(mais tarde a polenta com frango
invadirá as mesas)

A vida bate forte, e nós sentimos
Com o passar do tempo esta vida
Como que minguando,
Se esvaziando
E nos dá um desespero,
Uma sensação esquisita de perda
Talvez de nós mesmos.

Quando olhamos para trás
Aos soluços
A antiga camaradagem do campo
Ainda nos impregna do cheiro.
A lavoura e a criação ainda nos olha.
Sozinhos, ainda vemos
Os antigos pastos,
Trilhas vermelhas
Por onde um dia,
Pequenos, tal qual bois,
Partimos.

sábado, maio 17, 2008

As cores e o cego

(Foto: Pedro Moreira - Porto - Portugal)
http://www.pedroxmoreira.com/


Me lembro da cor de açafrão
O capinzal quedando-se na tardes quentes,
O mugido da vida batendo forte
Poeira vermelha além do córrego
O freado de uma bicicleta
Que descia a rua
Violentamente.

Me lembro de coisas ínfimas
Borboletas amarradas numa linha
Impiedosamente presas
A laços que eu, moleque, fazia
Matando a vida, a bela vida,
Sem saber de outra linha
Mais bela, que torna a vida
Essencial.

Me lembro, de forma clara, até
Dos assobios ao entardecer
A turminha que se reunia
Na esquina da Santa Terezinha
Com a rua Acre, quando o sol
Se colocava pras bandas
Do Edifício Ema
E a rua silenciava.

As coisas que me lembro
Parecem marcas de cera
Ferro em brasa
Estiletes fincados
No mais profundo
Da carne.
Parecem cores
Em olhos de um cego.

terça-feira, maio 13, 2008

Certos Segredos

(Foto de Luis Pereira - Amarante - Portugal)
http://www.luispereiraphotografia.blogspot.com/


Posso te falar de coisas,
Que nunca serão ditas,
Que nunca serão ouvidas
Secretas,
Como a vida
das plantas.

Posso te falar de coisas
De ruas tristes em bairros
Antigos, enlameados
Em cidades longínquas
Onde moças loiras
Caminham.

Posso te falar, posso
Te aceitar, posso te olhar,
Em sua pequena casa
Próxima
Ao aeroporto.
Dia chuvoso
Sussurros.

Posso enfim te dizer
De forma clara e concisa
Coisas que jamais serão
amanhecidas
que jamais serão
esquecidas:

As formas suadas
sob o lençol branco
de algodão
como gostas.
Segredos eternos
Construídos em aço
mesmo
que não queiras.

sábado, maio 10, 2008

Certas escolhas

Existem decisões
Amargas, doloridas
Tanto quanto cortar
Braço, uma perna,
Olhar-se através
De um espelho mágico
Que mostra apenas
O caos que escondemos
Atrás de sorrisos
E afagos.

Existem decisões
Amargas, eternas
Duras como aço,
Esmagamos nosso
Coração, cortamos
Nosso punho
Vazamos nossos
Olhos e choramos
Lágrimas aneladas
Sombrias

Lágrimas
Marcadas em rocha
Com um cinzel
De ouro, mas tão secas
Que parecem ser
De chumbo.

terça-feira, abril 01, 2008

O verão de 1973

Deu-me a entender a minha amiga
depois de olhar
Para os lados da rua,
Além das árvores,
Respirar um pouco,
Suspirar uma ou duas vezes
Que a luz que vinha do porto
De areia,
Ou o brilho quase fosco
Que subia da rua santa Terezinha
Eram visões, miragens minhas
Sumiriam com o tempo
Quando,
Adulto engajado nas ruas
De São Paulo, trinta anos depois
eu sequer lembraria,
Daquela tarde brilhante
Sol a pino, extenuante
Como era o sol de Andradina
Em pleno verão de 1973;
Que eu sequer me lembraria
Do nosso segredo
Das frutas roubadas no sítio
De dona Estela
Dos pássaros assassinados
Em emboscadas e arapucas.
Deu-me a entender a minha
Amiga,
Que eu sequer me lembraria
Das nossas idas ao bosque
Olhar ninhos de passarinhos
Olhar ninhos
Olhar ninhos
Que não eram nem nunca foram
de passarinhos.
Mas estava enganada a minha
amiga,
As imagens daquele verão
vivem em mim com tanta força
que as vezes tenho violentos
desvarios, e os anos
Me parecem uma teia frágil
descontruidas,
Mas fixadas em mim
Num eterno e angustiante
caos.