domingo, dezembro 16, 2007

Voltando de Poços de Caldas

Um enorme vagão me atravessa
Na serra cortada de trilhos
Nas encostas íngremes da montanha.
Terras vermelhas,
Vermelho sangue entre a grama:
Uma enorme noite me atropela.


(uma bem antiguinha....)

Saber sempre

No aparelho do canto/pinta a dor e seu encanto
Na curva vil da rua/espalha-se uma ferida crua
No vazio do nosso espanto/fica o homem e seu rebento
Na escura ceia de cada dia/sobra o pé a passo lento.

No canto/espanto
Na rua/a dor nua
Na face/o disfarce
No dia/a falsa alegria.

Na candura de cada dia/espalha-se o resto só da ceia
No escuro vazio do canto/morre calado seu rebento
No dia vil daquela rua/sobra a dor tangente e crua
Na ceia pintada de preto/caminha o homem a passo lento.

(uma das antiguinhas....)

terça-feira, dezembro 04, 2007

Os pêndulos e os navios

Em certos aspectos todas as coisas são Unas
Se olharmos com o olhar certo
Com a vista aguda de uma janela elevada
À quintessencia dos pêndulos.

É permitido sonhar com coisas vãs
Platônicas, edipianas, traves abertas
E primitivas, delirantes em suas formas:
É permitido que as mobílias flutuem

Nesta imensa casa que somos nós todos
E que o ébano se misture com a laca,
Que o estanho se congregue a prata
E que os enganos não passem de
Mergulhos, aduelas, paralelos
Deixados para trás entre as águas.

Em certos aspectos todas as sensações são cruas
Delírios, negras paredes onde lívidos
Corpos se tornam mágicos e vastos.

Em certos momentos, somos navios
Acima da espuma e em queda
Para o profundo mar onde numerosas
Ondas, liquidas luas, emprumadas jóias
Estão à nossa espera numa eterna vazante.

Exercício 3 - A noite azul e plena

Aparentemente a cena é plana:
murmúrios e servos,
hunos e trincheiras.

O forte é avisado, destacado
no meio da noite azul e plena.
Somos gente, peculiares pontos.

No interior a explosão
lamento de nomes, combates
e não há lugar tão secreto.

Em direção ao front, rios
de ferro cruzam a carne:
entre lágrimas não há valia.

Resta a mim mesmo,
soldado à beira da fuga.

Exercício 2 - Folhas, abelhas, ferrões

Folhas compostas são frutos
Dividindo algumas faixas
Que cismam em se perder
Ao longo dos trilhos.

Permanece uma mancha
Pintura esbranquiçada e azul
Lembrando bagas feitas
Abrangendo os sertões.

Algumas folhas lembram
Abelhas, ferrões e estames
Dispostas em cantos
Mais ou menos cismados.

A astúcia dos caules
Simulam venenos outros
Irrompendo pelo chão
Cujas flores morrem.

Exercício 1 - As coisas


Primeiro as coisas
Precisam de quietude
Para que floresça nelas
A total amplitude

Depois o parto natural
As palmas e oliveiras
Aparecendo entre os dedos
De profanas freiras

As pinturas dos costumes
Impressionam nosso medo
Cortesãs ou madonas
Amam sempre cedo

E acordam os meninos
ao badalar do beijo
que mascaram o desejo
disparam milhares de sinos.

terça-feira, novembro 27, 2007

Minha casa na Rua Acre, em Andradina

Cresci nesta casa na Rua Acre. Quando meu avô a construiu nos idos de 1966 era de madeira, depois foi vendida e reformada.
Muitas saudades, muitos momentos felizes passei nesta casinha simples onde vivi até o dia 05 de janeiro de 1974, quando vim para São Paulo.

Até hoje deve ter muitas bolinhas de gude enterradas ali por mim. Será que ainda existe o pé de manga que plantei no fundo do quintal? E meu pé de laranja? Será que ainda existe? Qualquer dia tomo coragem e pergunto para o novo dono.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Na visão de um caipira

Como caipira entendo
Que gado somos todos
Na malhada do pasto
Mugindo em alto som.

Andando em lento cerrado
Como gado mugimos
O gozo da vida rala
Escorrendo pelos cantos.

Como caipira entendo
Que gado bom não berra
Ou muge, ou se avença
Como qualquer eito.

A paz do pasto nos alivia
Esfarrapa e estropia
Marca a dureza do ferro
Na carne posta à venda.

O lento passo do frio
Na ocasião das touradas
Traz-nos palha e pavio
Que limpam as beiradas

Como caipira entendo
Que a dor de existir é pano
Dinheiro cru e enfeitado
Com que à revelia me vendo.

sábado, novembro 24, 2007

A cidade e suas múltiplas formas

Em meu sonho a cidade noturna
Incongruente com suas catedrais
Lembra um copo com suas fachadas
Suas proas boquiabertas
Seus flancos amurados e vermelhos
ruas longitudinais.

Em meu sonho a cidade é enseada
Mergulhada em um ou mais preâmbulos
O céu de uma infinitude cética e urgente
Como um alto mar em relevo
Camisa de seda arroxeada
mulher de sexo impudente.


Orlando suas ruas e suas dobras
Percebe-se o contexto amargo
De sua grande ingenuidade:
Através do quarto enluarado
Pássaros excitados procuram
O que há de invisível na cidade.

Em meu sonho – através dele, talvez
De suas possessivas formas -,
Semelhante imagem se distorce
Como serpentinas em carnavais
Caiada de branco em sua posse
num quadro que não existe mais.

quarta-feira, novembro 14, 2007

A marca - De malas prontas para Andradina

Preparo-me para a viagem
Coloco na mala camisas, calças,
roupas íntimas e brancas.
Logo mais à noitinha, os carrilhões se movem
Trevas se iniciam, figuras são lançadas no meu rosto,
Sinto o peso nos ombros.

Em meu hemisfério a viagem é indefinida
Nada mais que um ponto transitório no espaço
Singular desenho, o homem que retorna ao seu umbigo.
Essa esperança tenho, mesmo que não compreenda:
Há uma marca em mim
E a tradução é só uma emenda.