quarta-feira, novembro 14, 2007

Ponta-cabeça

Pelas paredes laterais surgem crostas
Desenhos, pequenos ponto anelados
Mostrando garatujas de um menino
Dimensões que jamais se conheceu

Quanto à forma as letras são simples
Existem num estado de lassidão
Janelas circulares e hesitantes apenas
Estreitamente escritas durante a noite

Parece um nariz que o menino cospe
Navios desenhados de ponta-cabeça
Instrumento muito amplo e mergulhado
Viagem de regresso para um mar maior

Sem solução

Muitos foram aqueles que me chamaram
E colocaram pedras, construíram casas
Como navalhas

Muitos ditaram sílabas em noites quentes
E se prolongaram para a frente da areia
Gesticulando golpes

Muitos se postaram ao meu lado
Mas meus sentidos não garantem rede
Arcos ou coberturas

Muitos foram aqueles que num segundo
Prometeram a morte dos seus sentimentos
Sem solução para este mistério

Muitos – milhões -, mostraram-se transpostos
E foram apenas morte, escuridão
E imobilidade

No final, a vida não é uma resposta

quarta-feira, novembro 07, 2007

Tramas de Sirius

Tal qual a morte do divino corpo
Sirius sangra o céu de novembro
Pintando de cinza as cores sutis

Tal qual a morte do eterno manto
O pó do tempo destila seu sono
Arrastando assombrosas teias

Mais de mil navios pintam a noite
Tecem lãs de doces tramas
Pavilhões de muros atrelados

Tal qual a morte em eterno sopro
Tal qual a vida em silente vinho
Percorro só este vago caminho

segunda-feira, novembro 05, 2007

A confissão de Polidoro

Por ordem da Deusa
apertei meu elmo
cingi meus lombos
e combati milhares

Antes do sol, as pétalas
trilhas emaciadas
por pés de escravos
a quem não libertei

Construí colunas
entre os mares de Zeus
ergui muros e templos
corrida de tantos pés

Por ordem da Deusa
destruí muralhas
atirei-me em abismos
sacrifiquei bois e pássaros

Nada me feria, nada
comandei frotas pelo Egeu
atingi cumes e fronteiras
roubei o fogo divino

Por ordem da Deusa
combati à esquerda
e à direita tombaram
heróis de ferro e aço

Golpeei povos
calquei meus pés
em caminhos de fadas
prata e doce alabastro

Por ordem da Deusa
destrocei corações
em países do crescente
entre projéteis inimigos

Por ordem da amada e santa
Deusa e senhora dos tempos
aqui estou, herói sem elmo
sem punhal ou lança

Nem Páris nem Heitor
tiveram o destemor
de buscar para si
a dor da espada

Nem Ájax nem Menelau
construíram navios potentes
dos lares desterrados
nem de lança insolente

Aqui estou sem corcéis
nem jóias ou infantes
sem rubor nem palácios
ou poder das falanges

Aqui estou em corpo destronado
soldado que não mais tenta
fugir de si ou da Deusa
fugir do mar ou da santa

Só me restou o corpo
ó Deusa imortal
e o sangue coagulado
a mim próprio reduzido

domingo, outubro 28, 2007

As cadeiras sob o Flamboyant


Havia uma luz parecida com um toco de cigarro,
O vazio e o leve tamborilar dos pássaros,
Nenhum som, nenhum gesto noturno
Apenas um prisioneiro nos olhos do tempo,
A antiga casa verde de madeira
Que te recebeu quando ainda não vinhas.

Uma velha paineira sob os deuses
(pintada como uma velha abelhuda
de plantão no quintal extenso),
dividindo o céu com o flamboyant
esteio de gerações de moleques
correndo entre suas bagas
na expectativa da primavera
saqueando os quintais alheios.

Havia uma casa, dois carros descendo
um homem à frente
dando berros urgentes na buzina,
A camisa branca desabotoada
Descendo a íngreme ladeira
Na noite inevitável de sábado
Quando o clube tocava lembranças
E fazia uma passagem entre a casa o tempo.

Construindo uma força dentro de mim
Construindo algo que eu não entendia
Mostrando que porta ainda existe, a clareira
O rosto desconhecido
Semelhante a este que ainda uso
e cada vez menos, entendo.

Longe, a cara do homem anônimo.
Nosso vizinho, que morava depois da curva
Espécie de calma furiosa
Quando não bebia o suficiente
E chegava em casa de quatro, carregado.

Todo sábado tinha festa perto do pontilhão cinzento
Deslocado no ar e um tanto pequeno,
Na cidade crua como carne na agulha
Mas que nos permitia ver o cartaz do cineminha
deixava ver que era tarde e os motivos eram outros
que a noite era imensa, na pequena faixa.

Entre o ar deslocado da calçada
Onde as famílias conversavam
Sob a luz de candeeiros.
Anos atrás, num circulo mágico de cadeiras
e esquecimento onde o rosto já não mais
se insinua.

O que tem sido


Em meia hora a caminhada se desfaz em somas
Lírios, cintilações da manhã
Água distante de um rio outrora dividido.

De forma invisível
- Quase como uma ausência
Grandes massas ornam de luz

O que tem sido
Caminho, diversas ruas
a nossa posse

O que tem sido
Periélio, contrapeso, amontoados
Colocando em evidência

Dois ou mais encantos:
Segredo
Engano
Cinco minutos

De um tempo que ainda
Não se fez distante
Folião, apenas

De uma confusa direção
De nenhuma combinação
Humana.

domingo, outubro 07, 2007

Anotações de um caipira - parte 1

Parte 1. A Lembrança como trevo

No inicio era o verbo
Um borrão inédito pintado nos caules das arvores.
No inicio era o nome,
Mas o nome ainda não existia além do tempo,
Ainda não deflagrava gritos, correrias, a longa noite
Se esvaindo entre os dedos,
O apito do trem varando a escuridão dos trilhos.

No inicio era o verbo
Uma criança natimorta, uma ruazinha tranquila e mal delineada
Na pupila do homem,
Um mal estar, a tranqüila roça de rododendros
Infestando-se pelo calos do roceiro,
(A mão inerte, extática no ar,
Apontando uma direção desconstruida)

No inicio era o verbo
Um motor dando fortes estalos,
A vida emperrada pelo cortejo
Construção de tijolos vermelhos ainda tremeluzindo
Nos olhos da casa, numerosos amigos
Acenando ao longe, indistintos já, na distância
Da vida que se esvai e se deteriora.

No inicio era o verbo
Semi-estrangeiro, alguém libertado das coisas
Enigmas que nos compõe e nos altera
Das cinzas e das enormes latas rasas onde somos guardados
Pelo senhor do mundo, pequenas esferas que pulsam
Pulsam e depois repousam
Quando nos chegam os dias de fome.

No inicio, sequer era o Verbo.
Porque o inicio nem são dias
Nem infância são, sequer vislumbram horas
Senão um olho humano e fixo caminhando tropegamente
Pelas calçadas, onde El-Rei domina as cidades
Do sul, do norte, os meio-termos e o que nos sobra.

Se fosse verbo seria letra,
Seria presente, passado, a eterna poeira que ainda nos envolve.
Seria represa, dom guardado, pequenos pedaços que se foram
Fotografia ainda não revelada,
Não mais que homens correndo ao lado do trilho
Tropeçando em pedras
Numa busca desigual por sua própria imagem
já perdida num antigo espelho.

domingo, setembro 30, 2007

Tempo de plantio

I

Te digo milhões de coisas.
Tu me entendes:
Compactuamos lutas
Desde o início do mundo,
Compartilhamos dores
E lado a lado amamos
Nossos corpos alheios
Ondas num mar de desvios.

II

Te faço ir a portos
Dos mares azuis de Creta.
Tu te abres como uma porta
Forçadamente entreaberta
Meio triste, meio lenta
Mostrando a soleira
A parede da sala branca
Os quadros de moldura escura.

III

Rios áridos determinam fronteiras
E estimativas de fogos.
Agrupo cercas ao teu redor,
Coleto frutos, coleto pontos
Prego teu corpo entre fugas
De pássaros embriões.
Tu me entendes:
Dentro de ti mora um ninho
De itens sublinhados.

IV

Mostro o vazio
Das ruas virgens
Folhas brancas
De impregnação.
Te colho na aurora
No musgo pálido
Na madressilva.
Por aí sobrevivo
Jogando cachos

V

No desconhecido dos teus olhos
O meu sentido é um só:
A paz que mora contigo
Me pertence em entendimento
Sou forte quando silencio
Cheiro o mar dos teus abraços.
Buscando a água
Que já não acho
Nos teus seios.

VI

Te guardo o sentido.
Já não broto das algas
Já não sugo as selvas
Já não me jogo pelas camas.
Com prazer me deito
Me abro feito flor
E derramo o sangue
Do meu hímen de louça.

VII

Noites se fundem
Em indecifráveis equações.
Tu me entendes:
A liberdade é primavera
Cuja semelhança é tanta
Nas mãos (torno) do tempo.
Sentes a brisa desde o início
Alfa e ômega que sobrevive
A incontáveis meteoros.

VIII

Tento ser o que se foi
Pelas vias de concreto armado
E como tal foi me dado
Onde andas
Se já não estou em ti?
Tu me entendes:
Como tal me foi dado
Oferta queimada em fogo lento.

IX

Tua cicatriz me arde
E me transfigura eternamente.
Tuas mãos são fileiras
Onde soldados queimam
E cães se afogam
No sangue-martírio
Dos que foram vendidos
Nos templos do mundo.

X

Digo milhões de coisas.
Tu me entendes:
Solitário entre os homens
Sou uma planta que persevera
E por calcanhares sobrevive.
Habito um tempo de plantio
Onde a semente vive apesar
Onde a colheita é farta apesar
Das profundas fendas do desfiladeiro.

sábado, setembro 08, 2007

O milagre esquecido

O que mais doeu foi o milagre esquecido,
as maçãs revolvidas como um tiro no silêncio.
São tão banais estas horas,
estas datas obscuras escritas
em minha velha agenda.
Parecem mármore e desafios.
Parecem mapas,
contornos de continentes,
um dia de verão atordoado
por imponentes túmulos.
Onde enterrei meu nome, ali,
entre o serralho e o pôr-do-sol incidente

Para o meu desespero

Esqueceria palavras irrefletidas se não fossem torres,
bem cuidadas, onde um soldado esconde-se
inquietamente. Abro e fecho cortinas.
No quarto o cheiro de café invade os lençóis,
toillete demorada, barba feita,
o dia a se desenrolar para o meu desespero.
Escorrendo no colo e sob os pés, o lenço puro,
o chão intumescido de barro.
Fui criado solto num inferno de dias e noites.
Aos olhos do mundo sou mesmo disperso,
estação de trens, grade fria da janela
pintada de um branco tolo.